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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Janeiro-Março 2017 - Volume 1  - Número 1


Editorial

O futuro da especialidade de Alergia e Imunologia

The future of the specialty of Allergy and Immunology

Norma de Paula M. Rubini


DOI: 10.5935/2526-5393.20170002

Presidente da Associaçao Brasileira de Alergia e Imunologia, ASBAI




A especialidade de Alergia e Imunologia é um ramo relativamente recente na história da Medicina, embora várias doenças alérgicas tenham sido descritas desde a Antiguidade, como a asma e a alergia alimentar. O conceito de "alergia", terminologia criada por Clemens von Pirquet em 1903, enfrentou resistência em sua aceitaçao inicial, por ter ido de encontro aos paradigmas estabelecidos na época que consideravam que o sistema imune era essencialmente protetor e nao poderia ser o "causador" de doenças. Com o passar das décadas, o termo alergia estabeleceu-se, em paralelo ao aumento da prevalência de doenças alérgicas, em funçao da expansao da industrializaçao, urbanizaçao, mudanças no estilo de vida, desenvolvimento de antibióticos e vacinas, mudanças climáticas e poluiçao ambiental.

Vários aspectos indicam que a especialidade de Alergia e Imunologia tem um enorme potencial de crescimento, ampliaçao do escopo de atuaçao e valorizaçao pela comunidade médica e sociedade. Dentre estes, destacam-se o impacto epidemiológico das doenças alérgicas, o amplo espectro das doenças alérgicas e desordens imunológicas, o acometimento de pacientes de todas as faixas etárias, a evoluçao no conhecimento dos mecanismos de desordens alérgicas e imunodeficiências, a identificaçao de novos alvos terapêuticos, o desenvolvimento dos imunobiológicos e as diversas interfaces da especialidade. A Alergia e Imunologia tem interface com a Pneumologia, Dermatologia, Otorrinolaringologia, Reumatologia, Gastroenterologia, Infectologia e Hematologia. Além disso, o especialista em Alergia e Imunologia é um profissional que pode atuar em diferentes níveis de atençao médica, bem como em açoes de prevençao e promoçao à saúde, e também em pesquisas clínicas.

Atualmente, as doenças alérgicas constituem uma questao de saúde pública, acometendo em torno de um bilhao de pessoas no mundo, gerando um grande impacto nos sistemas de saúde pública e privada, com altos custos diretos e indiretos, bem como comprometimento significativo da qualidade de vida dos pacientes e familiares. No Brasil, estima-se que em torno de 30% da populaçao seja acometida por uma ou mais doenças alérgicas. Certamente, a melhoria da assistência aos pacientes com doenças alérgicas implica na elaboraçao de políticas de saúde, programas de atençao primária, expansao de ambulatórios especializados e centros de referência. Em todas estas instâncias, há necessidade da atuaçao de especialistas em Alergia e Imunologia, quer seja na capacitaçao de profissionais de saúde na atençao primária, no planejamento e gerenciamento de programas de prevençao e assistência, e na atençao médica secundária e terciária.

Por outro lado, embora as imunodeficiências primárias (IDP) permaneçam como doenças raras, os avanços no diagnóstico e tratamento propiciaram aumento na identificaçao de casos de IDP, melhora da sobrevida e qualidade de vidas dos pacientes, permitindo que uma parcela destes atinja a vida adulta, desde que precocemente diagnosticados e com o tratamento adequado. Dentre estes progressos destacam-se a identificaçao de novas síndromes, o diagnóstico molecular e genético, o desenvolvimento da triagem neonatal de imunodeficiência grave combinada (SCID), a ampliaçao do acesso a terapias de reposiçao com imunoglobulina humana, o aumento do número de transplantes de medula óssea, o desenvolvimento de novos tratamentos, como para o angioedema hereditário e as desordens autoinflamatórias. Assim sendo, a assistência a pacientes com IDP é uma área de atuaçao com potencial para expansao, embora ainda limitada pelo alto custo dos procedimentos diagnósticos e terapêuticos, alta complexidade e assistência restrita aos grandes centros de pesquisa e ensino. O contingente de pacientes com imunodeficiências secundárias também aumentou em decorrência dos avanços no tratamento da infecçao pelo HIV/AIDS, doenças autoimunes, neoplasias malignas e transplantes de órgaos. O imunologista é um profissional capacitado para atuar interdisciplinarmente em pesquisas clínicas e no manejo de pacientes com imunodeficiências secundárias.

O alergista e imunologista é um especialista diferenciado, que, embora seja especializado em uma área específica do saber médico, a prática clínica o coloca próximo de clínicos, pediatras e geriatras, uma vez que presta assistência a pacientes de todas as faixas etárias e exige o domínio da abordagem integral do paciente, pois as doenças alérgicas e imunológicas apresentam um amplo espectro de manifestaçoes clínicas acometendo diversos órgaos e aparelhos e, frequentemente, os pacientes apresentam duas ou mais condiçoes alérgicas concomitantes.

Os estudos sobre a etiopatogenia das desordens alérgicas levaram à descoberta de novos alvos terapêuticos, incluindo imunoglobulinas, citocinas, receptores e moléculas de superfície. O desenvolvimento de anticorpos monoclonais recombinantes contra estes novos alvos representa uma nova era no tratamento de doenças alérgicas. O omalizumabe (anti-IgE), indicado para pacientes com asma grave, foi licenciado em 2003. Recentemente, a indicaçao do omalizumabe foi ampliada também para a urticária crônica espontânea de difícil controle. Vários outros anticorpos monoclonais têm sido investigados no tratamento de doenças alérgicas e imunodeficiências, incluindo anti-TNFα, anti-ILiβ, anti-IL1R1, anti-IL-5, anti-IL5Rα anti-IL-4Rα, anti-IL9, anti-IL-13, anti-IL17A, anti-IL22, anti-IL-31, anti-IL31R, anti-TSLP e anti-IL12/IL23p40. Alguns destes produtos já estao disponíveis comercialmente, apontando para a ampliaçao do uso de anticorpos monoclonais no tratamento das doenças alérgicas em um futuro próximo.

A imunoterapia alérgeno específica, um procedimento consolidado e utilizado há mais de um século, é o único tratamento modificador de doenças alérgicas. Nas últimas décadas, foram obtidos avanços significativos, como o aprimoramento dos extratos alergênicos (extratos purificados, padronizaçao e alérgenos recombinantes) e a comprovaçao da eficácia da imunoterapia sublingual. No presente, novas abordagens estao sendo investigadas, com destaque para novas vias de administraçao (intralinfática, epicutânea e intradérmica), novas tecnologias de produçao de extratos alergênicos (peptídeos, adjuvantes DNA, moléculas sensibilizantes altamente purificadas e nanomoléculas) e novas indicaçoes (dermatite atópica e alergia alimentar).

A evoluçao na compreensao da regulaçao do sistema imune e dos mecanismos celulares e moleculares envolvidos nas desordens alérgicas levou à identificaçao de fenótipos e endotipos, possibilitando a perspectiva do tratamento personalizado - medicina de precisao. Atualmente, inúmeras pesquisas buscando a identificaçao de marcadores biológicos em doenças alérgicas estao em curso. Além disso, o advento do component-resolved diagnostic - CRD (diagnóstico molecular) possibilitou a identificaçao precisa dos epítopes contra os quais o paciente está sensibilizado. Ocorreram também avanços na farmacogenômica, que resultaram em aplicaçoes clínicas na alergia a drogas. A medicina de precisao pode propiciar melhora na evoluçao clínica, maior preditibilidade da resposta ao tratamento, reduçao de efeitos colaterais, melhora da qualidade de vida e a optimizaçao dos recursos da saúde.

Todos os avanços obtidos, os investimentos em pesquisas em Alergia e Imunologia, as perspectivas em curto e médio prazo de novos métodos diagnósticos e terapias, aliado a dados epidemiológicos que apontam para o aumento da incidência e prevalência de doenças alérgicas, indicam que a especialidade de Alergia e Imunologia está em franco crescimento e com potencial para a ampliaçao da área de atuaçao. Contudo, é necessário que o conjunto de médicos alergistas e imunologistas esteja em constante atualizaçao científica, acompanhe a evoluçao da especialidade, incorporando novos procedimentos e tecnologias no exercício profissional e esteja capacitado para atuar interdisciplinarmente com as especialidades afins. Além disso, é necessário sensibilizar as autoridades governamentais para a importância de políticas de saúde para a prevençao e assistência a pacientes com doenças alérgicas e imunodeficiências e o desenvolvimento de campanhas e açoes visando à conscientizaçao e mobilizaçao da sociedade sobre a importância do diagnóstico e tratamento de desordens alérgicas e imunodeficiências.

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