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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Julho-Setembro 2017 - Volume 1  - Número 3


CARTA AO EDITOR

Hipersensibilidade a ácaros e dermatite atópica

House dust mite hypersensitivity and atopic dermatitis

Cristine S. Rosario1; Nelson A. Rosario Filho2


DOI: 10.5935/2526-5393.20170046

1. Pós-Graduanda, Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente, Universidade Federal do Paraná. Especialista em Alergia e Imunologia pela ASBAI
2. Professor Titular de Pediatria, UFPR


Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação desta carta.




Prezado Editor,

Dermatite atópica (DA) é uma doença alérgica prevalente que leva a transtornos psicossociais significativos e tem morbidade clinicamente relevante1,2. Afeta tanto crianças quanto adultos, e tem um curso recidivante3.

DA é caracterizada por alto grau de heterogeneidade clínica. Estudos epidemiológicos demonstraram que a sensibilização pela IgE não causa, mas acompanha sinais cutâneos precoces de eczema4,5. O papel da sensibilização a alérgenos inaláveis em DA não é bem estabelecido. Os níveis séricos de IgE total são elevados, mas parecem ser ainda mais elevados em pacientes com DA e mutações da filagrina (FLG)6.

Os ácaros desempenham algum papel na patogênese da DA?

1. A sensibilização IgE-mediada a alérgenos inaláveis e alimentares é frequente na DA. A maioria dos pacientes com DA tem níveis elevados de anticorpos IgE específicos para alérgenos dos ácaros e, além disso, foi demonstrado que espécimes de biópsia de pele com lesões de DA apresentam infiltrados com linfócitos T que reconhecem o Der p7. Os alérgenos dos ácaros do grupo 1 podem facilitar sua entrada na pele pela sua ação enzimática proteolítica e quebra da barreira epidérmica, e alguns alérgenos dos ácaros podem ativar queratinócitos e induzi-los a produzir e secretar citocinas pró-inflamatórias8-10.

2. Os alérgenos podem sensibilizar crianças com DA por via cutânea. A proliferação de linfócitos estimulada por alérgenos dos ácaros demonstrou respostas significativamente mais altas em crianças com DA do que em controles. Níveis séricos de IgE específica para ácaros eram correlacionados com o índice de estimulação de linfócitos in vitro. Esses resultados reforçam a hipótese de que os alérgenos inalatórios, assim como os alimentares, sensibilizam crianças via cutânea10.

3. Doenças alérgicas respiratórias provocadas por alérgenos inaláveis são frequentes entre pacientes com DA. Analisamos 3.364 pacientes com primeira consulta em ambulatório de Alergia Pediátrica do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, entre 2007 e 2013. Destes, 334 pacientes tinham DA (9,9%), 250 (7,4%) tinham DA associada a rinite alérgica, e 118 (3,5%) tinham a associação entre DA e asma. Foram realizados testes cutâneos alérgicos (TCA) com extratos padronizados de 11 alérgenos obtidos de FDA Allergenics®. Eram 188 meninos (56,3%) e 146 meninas (43,7%), com idade de 1 mês a 14,6 anos (mediana 4,3 anos). A contagem de eosinófilos variou entre 0 e 5.018 células/mm3, com mediana de 402/mm3. Os níveis séricos de IgE total variaram entre 1,1 e 3932,2 kU/L, com mediana de 1433 kU/L.TCA foi realizado em 125 pacientes, e destes 90(72%) tinham testes positivos; 25/90(27,7%) apresentaram TCA positivo para apenas um alérgeno; e 65/90(72,30%) apresentaram TCA positivo para mais de um alérgeno. Oitenta e um pacientes (64,8%) tinham teste positivo para Dermatophagoides pteronyssinus, e 59 (47,2%) para Blomia tropicalis.Neste grupo de pacientes, a taxa de sensibilização a ácaros da poeira foi semelhante à da população geral, com níveis elevados de IgE total e eosinófilos no sangue periférico3,6.São necessários mais estudos para definir a associação causal entre sensibilização a ácaros da poeira e DA.

4. Ácaros foram encontrados em raspados de pele de pacientes com DA. Pacientes com DA têm maior frequência de ácaros na pele do que indivíduos saudáveis, o que pode sugerir participação destes microrganismos na sensibilização alérgica e exacerbação da doença, embora o número de ácaros nas roupas e camas seja semelhante em pacientes com DA e controles sem DA11.

5. Medidas para evitar exposição aos ácaros podem reduzir o eczema12.Estudos controlados têm demonstrado que ácaros estão envolvidos na patogênese da DA em crianças13,14.

6. A aplicação epicutânea de ácaros (patch test) induz DA na pele não lesionada de 50% dos pacientes com DA15,16. Linfopoietina tímica estrômica (TSLP), uma citocina produzida pelos queratinócitos epiteliais, desempenha um papel importante na patogênese da DA. Landheer e col. investigaram a expressão da TSLP na pele não lesionada de pacientes com DA após patch test com extrato de ácaros. A indução da expressão da proteína TSLP ocorreu somente em pacientes com patch test positivo, sugerindo que a TSLP desempenha um papel na indução do eczema por ácaros relacionado à DA17.

7. A imunoterapia alérgeno-específica (IT) pode ser um tratamento efetivo para pacientes com DA. A IT tem sido usada para tratar DA leve ou moderada visando restaurar o desequilíbrio da resposta imunológica18-20. Revisão sistemática deensaios clínicosrandomizados controlados de IT específica que usou extratos alergênicos padronizados em pacientes com DA encontrou evidência limitada de que IT específica possa ser um tratamento efetivo. Estudos com IT subcutânea e sublingual (10/12 ensaios com ácaros) foram considerados de baixa qualidade para esta revisão. O tratamento não foi associado a risco aumentado de reações locais ou sistêmicas. Estudos futuros deveriam utilizar formulações alergênicas de alta qualidade e incluir medidas de desfecho reportadas pelos pacientes21.

Em conclusão, há evidências de que os ácaros da poeira doméstica estão envolvidos na patogênese da DA, mas a associação definitiva entre sensibilização a ácaros e DA ainda necessita ser estabelecida.

 

REFERÊNCIAS

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