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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Julho-Setembro 2017 - Volume 1  - Número 3


Artigo de Revisão

Mecanismos da imunoterapia alérgeno-específica

Mechanisms of allergen-specific immunotherapy

Veridiana Aun Rufino Pereira1; Wilson C. Tartuci Aun2; João Ferreira de Mello3


DOI: 10.5935/2526-5393.20170036

1. Médica assistente do Serviço de Alergia e Imunologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo
2. Chefe da Seção de Imunologia do Serviço de Alergia e Imunologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo
3. Diretor do Serviço de Alergia e Imunologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo


Endereço para correspondência:

Veridiana Aun Rufino Pereira
E-mail: veridiana.aun@uol.com.br


Submetido em: 20/06/2017
Aceito em: 07/07/2017.
Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.

RESUMO

A imunoterapia alérgeno-específica tem sido usada há mais de 100 anos como um tratamento de dessensibilização para doenças alérgicas, representando um método potencialmente curativo e específico. O presente estudo tem como objetivo revisar os mecanismos da imunoterapia alérgeno-específica, através de revisão bibliográfica com base em artigos publicados entre 1998 e 2016, disponíveis no banco de dados PubMed. Os mecanismos de ação da imunoterapia incluem modulação de linfócitos T e B, produção de IgG4 alérgeno-específica e redução de IgE alérgenoespecífica, migração de eosinófilos, basófilos e mastócitos nos tecidos, bem como a liberação de seus mediadores. As células T reguladoras (Treg) suprimem as células dendríticas responsáveis pela geração de células T efetoras, inibindo TH1, TH2 e TH17. As células Treg foram identificadas como peças-chave no processo de indução de tolerância periférica aos alérgenos.

Palavras-chave: Imunoterapia, linfócitos T reguladores, linfócitos B reguladores.




INTRODUÇÃO

A imunoterapia alérgeno-específica tem sido usada há mais de 100 anos como um tratamento de dessensibilização para doenças alérgicas, representando o único método capaz de alterar o curso dessas patologias e ainda induzir tolerância aos alérgenos por um longo tempo. Segundo Jean Bousquet, a imunoterapia alergênica pode ser definida como a prática de administrar gradualmente quantidades crescentes de extrato de alérgeno em um indivíduo alérgico, para melhorar os sintomas associados com a exposição seguinte ao alérgeno causador1,2.

Durante muitos anos acreditou-se que a imunoterapia induziria um desvio da imunidade de TH2 para TH1, através da redução dos níveis de IL-4, IL-5 e IL-13 e consequente aumento de IFN-γ (Figura 1). Entretanto, esta teoria era incapaz de explicar porque os indivíduos submetidos à imunoterapia não apresentavam maior incidência de doenças relacionadas à população de linfócitos TH13.

 


Figura 1 Teoria do desvio de TH2 para TH1
Dependendo da natureza do antígeno e das citocinas envolvidas, o linfócito TH0 se diferencia em TH1 ou TH2. A subpopulação TH2 predomina nos indivíduos alérgicos e caracterizase por produzir IL-4 e IL-5, responsáveis por produção de IgE e ativação de eosinófilos respectivamente. Estas citocinas inibem a subpopulação TH1 e consequentemente a produção de IFN-γ. Durante a imunoterapia ocorreria um desvio da população TH2 para TH1, inibindo a resposta alérgica

 

A partir de 2004 surgiram os primeiros trabalhos demonstrando a participação de células T regulatórias no mecanismo da imunoterapia alérgeno-específica. Desde então, a indução de tolerância imunológica tornou-se o alvo principal na prevenção e tratamento de doenças relacionadas à disfunção do sistema imune, como as alergias.

As principais alterações imunológicas observadas durante a imunoterapia são: indução de células T e B reguladoras, regulação de IgE e IgG4 alérgeno-específicas e tolerância imune. Os principais alvos deste tratamento são as células imunes tipo 2, incluindo células TH2 e células linfoides inatas tipo 2 (ILC2), que produzem IL-4, IL-5 e IL-134.

Essas alterações imunológicas da imunoterapia podem ser didaticamente divididas em precoces, intermediárias e tardias.

Alterações precoces

Relacionadas à dessensibilização de mastócitos e basófilos

Após as primeiras injeções de imunoterapia, observa-se um declínio na degranulação dos mastócitos e basófilos, apesar dos níveis aumentados de IgE específica. Os mecanismos moleculares que explicam este comportamento celular ainda precisam ser elucidados. Uma das explicações possíveis seria o rápido aumento de receptores de histamina do tipo 2, já nas primeiras 6 horas da fase de indução da imunoterapia4,5.

Os receptores de histamina H1 possuem propriedades pró-inflamatórias, ativando as células da inflamação como TH1. Os receptores H2 estão envolvidos na resposta imune tolerogênica (Figura 2). Ao se ligar aos receptores H2 nas células dendríticas imaturas, a histamina reduz a capacidade de apresentação de antígeno e aumenta IL-10, aumentando assim a capacidade supressora das células T regulatórias (Treg)6,7.Os receptores H2 são encontrados preferencialmente nos linfócitos TH2, enquanto os receptores H1 predominam na população TH1.

 


Figura 2 Receptores de histamina nas células imunes
As células dendríticas possuem os 4 receptores de histamina: HR1, HR2, HR3 e HR4. A ligação da histamina aos receptores HR1, HR3 e HR4 aumentam a capacidade de apresentação de antígeno e a subpopulação TH1. Nos linfócitos TH1 predominam os receptores H1 e sua ativação promove aumento de IFN-γ. Estímulo nos receptores HR2 na célula dendrítica reduzem a capacidade de apresentação de antígeno, IL-12, aumentam IL-10 e a capacidade supressora das células Treg.

 

Assim, o aumento de receptores H2 contribuiria para a redução da liberação de mediadores de mastócitos e basófilos, além de regular as atividades de células T, células dendríticas e basófilos4.

Relacionadas às células apresentadoras de antígeno

A imunoterapia também é responsável pela indução de células dendríticas reguladoras, responsáveis pela ativação de células Treg produtoras de IL10 e TGFβ. Consequentemente, observa-se inibição das células dendríticas tipo 1 e 2, responsáveis pela diferenciação de TH1 e TH2 respectivamente (Figura 3)5.

 


Figura 3 Diferenciação das células dendríticas imaturas
As células dendríticas imaturas diferenciam-se em tipo1 (DC1), tipo 2 (DC2) e tipo regulador (DCr) dependendo do estímulo. Na presença de alérgenos e helmintos predomina a população DC2, responsável por ativar TH2. Peptídeos bacterianos como LPS ativam a população DC1, e, consequentemente, TH1. A imunoterapia aumenta as células dendríticas reguladoras e Treg.

 

Alterações intermediárias

Alterações nas células T

A imunoterapia alérgeno-específica promove alteração nos subtipos de linfócitos T (Figura 4). A proporção de células TH2 secretoras de IL-4 diminuem durante o tratamento, enquanto as células T reguladoras (T reg) induzíveis produtoras de IL-10 aumentam consideravelmente, atingindo níveis encontrados em indivíduos saudáveis4,5,8-10.

 


Figura 4 Principais funções das células T e B reguladoras induzidas pela imunoterapia
A imunoterapia induz linfócitos T reg que diminui a atividade das células T efetoras e ativa células B reg produtoras de IL-10 e IgG4.

 

Existem dois tipos de células T reg induzíveis: FOXP3+ adaptativa e FOXP3-, também chamada Tr1. Esses dois tipos celulares produzem grandes quantidades de IL-10 e TGFβ. As principais ações dessas citocinas estão resumidas na Tabela 15.

 

 

A secreção de IL-10 e TGFβ, assim como a expressão de CTLA-4 e PD-1 na superfície das células T são fundamentais para as atividades supressoras das células Treg induzíveis. A indução de FOXP3 e geração de células Treg induzíveis dependem da ação de TGFβ e IL-2, associados ao aumento da coestimulação por CTLA-4 e redução de CD284,5,10.

Sabe-se que durante a imunoterapia ocorre um aumento da relação TH1/TH2, uma vez que as citocinas TH2 são rapidamente inibidas. Isto estimula a população TH1 e IFN-γ como se acreditava anteriormente. Entretanto, as células Treg e suas citocinas IL-10 e TGFβ inibem todos os subtipos de linfócitos T efetores, impedindo o aumento de doenças relacionadas a TH1. Assim, observa-se também, uma redução nos subtipos TH9, TH17 e TH22 e consequentemente suas citocinas4,5,10.

Redução do número de eosinófilos e mediadores

Durante a imunoterapia ocorre redução dos níveis séricos de eosinófilos e da proteína catiônica eosinofílica, assim como redução de fatores quimiotáticos para eosinófilos e neutrófilos. A IL-10 diminui a função e atividade dos eosinófilos, além de suprimir a produção de IL-5 pelas células TH24,5,9,10.

Regulação das células linfoides inatas (ILC)

As células linfoides inatas do tipo 2 diferem dos linfócitos TH2 por não apresentarem receptor de célula T específico. São capazes de produzir grandes quantidades de IL-5 e IL-13, porém pequenas quantidades de IL-4. Assim como os linfócitos TH2, sua diferenciação depende de IL-25, IL-31, IL-33 e linfopoietina do estroma tímico (TSLP)4.

A imunoterapia regula as ILCs, diminuindo o número de ILC24.

 

ALTERAÇÕES TARDIAS

Alterações nos linfócitos B e produção de anticorpos

Recentemente foram descritas células B reguladoras (Br1) induzidas numa fase tardia da imunoterapia, caracterizadas como CD73-CD25+CD71+, com função supressora das células TCD4+ e capacidade de produzir IL-10 e IgG4 específica. A IL-10 derivada das células Treg estimula o linfócito Br1 a produzir IgG na presença de IL-4, enquanto que a IL-4 sozinha induziria IgE4,5,10.

A IgG4 específica, também conhecida como anticorpo bloqueador, compete com a IgE específica pelo sítios de ligação com o antígeno, evitando assim a degranulação de mediadores de mastócitos e basófilos4,5,8,10.

Meses ou anos após o tratamento com imunoterapia, observa-se uma queda gradual nos níveis de IgE sérica, apesar do aumento transitório que ocorre no início da terapia4,5,8,10.

Supressão da resposta de fase tardia

A imunoterapia por longo tempo está associada à redução da resposta imediata e tardia durante a provocação com alérgeno na mucosa nasal, brônquica ou na pele. O mecanismo das reações de fase tardia é diferente das reações imediatas desencadeadas por mastócitos. A fase tardia envolve o recrutamento, ativação e persistência de eosinófilos, além de ativação de células T nos locais de exposição alergênica. Como a reação de fase tardia está associada ao aumento da hiper-reatividade brônquica e nasal, além de imitar a patologia da inflamação alérgica crônica, postulou-se que a eficácia clínica da imunoterapia depende de seus efeitos sobre esta fase tardia5.

 

TOLERÂNCIA IMUNE INDUZIDA NA IMUNOTERAPIA SUBLINGUAL

Os mecanismos imunológicos da imunoterapia sublingual (ITSL) não são tão bem estabelecidos como na imunoterapia subcutânea (ITSC). A Tabela 2 resume as principais diferenças e semelhanças no mecanismo das ITSC e ITSL.

 

 

CONCLUSÃO

A compreensão dos mecanismos imunológicos da imunoterapia alérgeno-específica é fundamental para se conduzir corretamente o tratamento das doenças alérgicas. Diferente do que se imaginava anteriormente, o desvio da imunidade de TH2 para TH1 não é o ponto chave para o sucesso do tratamento.

Os recentes avanços no conhecimento das células Treg e Breg e dos mecanismos de tolerância periférica foram essenciais para explicar as alterações imunológicas decorrentes da imunoterapia.

Assim, atualmente, considera-se como principal evento imunológico deste tratamento, a indução das células T reg, responsáveis por mudanças no equilíbrio das células T CD4 efetoras suprimindo TH1, TH2, TH9, TH17 e TH22.

 

REFERÊNCIAS

1. Bousquet J. Immunotherapy: state of art. In: New therapeutic approaches for allergic diseases of the respiratory tract, p1-36, Apr 1998. Programme and Abstracts. Apresentado a Euro Conferences Institut Pasteur,1998.

2. Ozdemir C, Kucuksezer UC, Akdis M, Akdis CA. Mechanisms of Allergen Immunotherapy. Immunol Allergy Clin N Am. 2016;36:71-86.

3. Durham SR, Till SJ. Immunologic changes associated with allergen immunotherapy. J Allergy Clin Immunol. 1998;102:157-64.

4. Jutel M, Agache I, Bonini S, Burks AW, Calderon M, Canonica W, et al. International consensus on Allergen Immunotherapy II: Mechanisms, standardization, and pharmacoeconomics. J Allergy Clin Immunol. 2016;137:358-68.

5. Akdis M, Akdis CA. Mechanisms of allergen-specific immunotherapy: Multiple suppressor factors at work in immune tolerance to allergens. J Allergy Clin Immunol. 2014;133:621-31.

6. Jutel M, Akdis M, Akdis CA. Histamine, histamine receptors and their role in immune pathology. Clin Exp Allergy. 2009;39:1786-800.

7. Jutel M, Blaser K, Akdis CA. Histamine in chronic allergic responses. J Investig Allergol Clin Immunol. 2005;15(1):1-8.

8. Durham SR. Mechanisms of Immunotherapy. J Allergy CIin Immunol. 2004;113:1025-34.

9. Akdis CA, Akdis M. Mechanisms of allergen-specific immunotherapy. J Allergy Clin Immunol. 2011;127:18-27.

10. Cavkaytar O, Akdis CA, Akdis M. Modulation of immune responses by immunotherapy in allergic diseases. Cur Opin Pharmacol. 2014;17:30-7.

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