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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Julho-Setembro 2017 - Volume 1  - Número 3


Editorial

Resposta imune tipo 2

Type 2 immune response

Pedro Giavina-Bianchi


DOI: 10.5935/2526-5393.20170033

Editor dos Arquivos de Asma, Alergia e Imunologia




A evolução do sistema imune permitiu a adaptação e o relacionamento harmonioso do homem com o meio ambiente. Através da imunidade, o organismo pode diferenciar o que é "próprio" do que é "alheio", viabilizando sua defesa contra outros seres e substâncias nocivas.

Em 1798, Edward Jenner desenvolveu a vacina contra a varíola, podendo-se considerar que, neste momento, a ciência Imunologia nascia como um ramo da Microbiologia, propondo-se a estudar e entender as respostas do corpo humano frente a substâncias externas. Pesquisadores têm demonstrado interesse crescente nesta área, que conjuntamente com a Genética, vem sendo palco de descobertas de extrema importância, algumas destas agraciadas com prêmios Nobel nas últimas décadas.

Com o avanço do conhecimento, observou-se que nem todas as respostas imunes são benéficas para o organismo. Em 1902, Richet e Portier relataram a ocorrência de anafilaxia em cães imunizados com toxina de caravela do mar. Posteriormente, em 1964, Gell e Coombs classificaram os mecanismos de hipersensibilidade em quatro tipos. Esta classificação constitui ainda hoje alicerce didático para o ensino e estudo das alergias. O mecanismo de hipersensibilidade do tipo I constitui a fisiopatogenia da anafilaxia alérgica, assim como está envolvido na urticária, angioedema, rinossinusite, conjuntivite, asma, dermatite atópica, micose broncopulmonar alérgica, entre outras doenças e síndromes.

Estudos feitos por Prausnitz e Küstner, em 1921, demonstraram que a reação anafilática era ocasionada por uma substância do sistema imune presente no soro dos pacientes, que em 1967 foi identificada pelo casal Ishizaka como sendo a imunoglobulina do isotipo E (IgE). O casal foi agraciado com o prêmio Nobel pela descoberta. Antes de ter sido isolada, a IgE teve suas propriedades descritas em diversos trabalhos com experimentos animais, muitos deles realizados pelo professor brasileiro Ivan Mota, que também contribuiu para a compreensão das propriedades biológicas dos mastócitos e dos mecanismos da anafilaxia.

Na reação de hipersensibilidade tipo I, a ocorrência de duas fases da resposta alérgica é bem característica, com fase imediata em decorrência da desgranulação de mastócitos e basófilos, e fase tardia, devido ao recrutamento por quimiotaxia de outras células que migram para o sítio inflamatório. Nas doenças onde há reexposição perene aos alérgenos, a fase tardia tem grande importância na cronificação do processo inflamatório. Tradicionalmente e didaticamente, coloca-se o mastócito e o eosinófilo, respectivamente, como célula central das fases imediata e tardia da reação de hipersensibilidade imediata. De fato, para o mastócito ser estimulado por um alérgeno através dos anticorpos IgE, necessariamente há secreção prévia desta imunoglobulina pelo plasmócito, o qual, por sua vez, teve contato e recebeu estímulo do linfócito T, que foi estimulado por alguma célula apresentadora de antígeno. Os mediadores liberados por estas células descritas acima exercem diversas funções, além de atrair para o sítio da inflamação outras células que secretarão outras substâncias. Portanto, conclui-se que a responsabilidade pelo início e pela perpetuação do processo alérgico não recai sobre uma única célula.

Para o entendimento da gênese de uma resposta imune protetora ou outra alérgica, muitas vezes maléfica, foi fundamental a descrição de duas subpopulações de linfócitos T auxiliares em camundongos (Mosmann, Coffman, et al., 1985). Os autores distinguiram duas subpopulações de linfócitos Th através da caracterização do padrão de citocinas secretadas e do tipo de resposta imune da qual estes participavam. Os linfócitos Th1 se caracterizavam pela secreção de interferom gama (IFN-γ), enquanto os Th2 pelo fator de estimulação de linfócitos B (BSF-1), hoje identificado como sendo a interleucina 4 (IL-4). Com a realização de novas pesquisas, deixa-se de falar apenas em subtipos de linfócitos e passa-se a estudar uma "rede Tipo 1 / Tipo 2 (T1/T2) de regulação da resposta imune", da qual fazem parte diversas células que assumem determinado perfil de secreção de citocinas. Enquanto a interleucina 12 (IL-12) e o IFN-γ são citocinas características da resposta imune tipo 1, a linfopoietina do estroma tímico (TSLP) e as interleucinas 4, 5 e 13 (IL-4, IL-5, IL-13) representam a resposta tipo 2.

 


Figura 1 Resposta imune Tipo 2

 

De uma maneira didática, porém simplista, afirma-se que enquanto a resposta T1 seria predominantemente celular e responsável pela defesa contra microrganismos intracelulares, a resposta T2 seria humoral, estaria envolvida nos processos alérgicos e na defesa contra verminoses. Após esta descrição de duas subpopulações de linfócitos Th em camundongos, os pesquisadores começaram a tentar responder duas perguntas fundamentais. Primeiro, se esta divisão existia, e qual seria sua importância no ser humano. Segundo, o que determinaria a polarização de um clone de linfócitos para um dos dois padrões de secreção de citocinas. Diversos trabalhos, tanto in vivo, como in vitro, comprovaram que embora não observemos uma dicotomia absoluta dos linfócitos T em Th1 e Th2, existem no homem padrões diferentes de secreção de citocinas e, portanto, de respostas imunes, as quais determinam resistência ou suscetibilidade a doenças e influenciam a evolução destas. Romagnani et al. (1991) foram pioneiros ao demonstrar que clones de linfócitos T humanos provenientes da conjuntiva de pacientes com conjuntivite vernal produziam altas quantidades de IL-4 e baixas quantidades de IFN-γ ao serem estimulados. Diversos fatores interagem e influenciam no desenvolvimento de uma resposta imune predominantemente T1 ou T2: genética; a quantidade, estrutura e porta de entrada do antígeno que induziu a resposta imune; as células (linfócito B ou macrófago, célula dendrítica plasmocitoide ou mielloide) e as moléculas coestimulatórias (B7.1, CD80 ou B7.2, CD86) envolvidas na apresentação; e a presença no microambiente inflamatório de hormônios, citocinas, prostaglandinas e outros mediadores.

Em suma, um sistema imune funcionante deve apresentar um balanço entre os polos de resposta imune T1/T2, o qual é geneticamente determinado, mas modificado pelo meio ambiente.

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