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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI
Revista oficial da Sociedad Latinoamericana de Alergia, Asma e Inmunología SLaai

Número Atual:  Maio-Junho 2015 - Volume 3  - Número 3


CARTA AO EDITOR

Rinite alérgica em crianças na idade pré-escolar: mito ou realidade?

Allergic rhinitis in preschool children: myth or fact?

Herberto José Chong Neto, MD, PhD; Nelson Augusto Rosário, MD, PhD


DOI: 10.5935/2318-5015.20150021

Serviço de Alergia e Imunologia Pediátrica, Departamento de Pediatria, Universidade Federal do Paraná E-mail: h.chong@uol.com.br


Nao foram declarados conflitos de interesse associados à publicaçao desta carta.




Prezada Editora,

O diagnóstico de rinite alérgica em crianças com idade pré-escolar, assim como de asma, deve ser atentamente avaliado pelo médico. Infecçoes virais induzindo rinite geralmente sao autolimitadas e requerem pouca atençao médica. Na investigaçao, outras doenças e comorbidades podem mimetizar rinite alérgica, dificultando o seu diagnóstico1. A presença de dois ou mais sintomas como obstruçao nasal, coriza, prurido e espirros, por mais de uma hora em dois dias é suficiente para o diagnóstico2.

A prevalência mundial das doenças alérgicas como asma, rinite e eczema em crianças e adolescentes, tem sido amplamente demonstrada utilizando o questionário padronizado da metodologia ISAAC (International Study of Asthma and Allergies in Childhood) nas fases I e III3,4.

No Brasil, a prevalência de rinite em crianças com idade escolar evidenciada pelo ISAAC I variou de 16,1% em Itabira a 27,2% em Recife, e de 16,5% em Aracaju a 31,2% em Sao Paulo na fase III. Entre os adolescentes, a prevalência de rinite foi de 9,6% em Itabira a 27% em Salvador na fase I do ISAAC e de 11,8% em Nova Iguaçu a 30,5% em Vitória da Conquista5.

Em um estudo realizado em Curitiba, utilizando questionário escrito padronizado aplicado aos pais de lactentes entre 12 e 15 meses de vida, foram explorados sintomas de rinite, sua associaçao com sibilância e uso de medicaçoes para tratar a rinite no primeiro ano de vida. Observou-se que a prevalência de sintomas de rinite alérgica foi de 48,3%, com início aos 6 meses de vida, sem predomínio de gênero. Houve associaçao de sintomas de rinite alérgica com sibilância recorrente (> 3 episódios). Lactentes com sintomas de rinite alérgica tiveram diagnóstico médico de rinite mais frequente do que aqueles sem sintomas (32,4% versus 8,9%). O uso de medicaçoes para tratamento da rinite foi maior nas crianças com sintomas nasais, e um quinto utilizou anti-histamínicos orais anti-H1 (AH) ou corticosteroides intranasais (CI), e 14,5% utilizaram ambos AH e CI, mesmo nao sendo aprovado no Brasil nenhuma formulaçao de CI para uso abaixo de 2 anos de idade6.

Em um estudo transversal, multicêntrico, realizado em Portugal, aplicou-se questionário adaptado do ISAAC aos pais de crianças entre 3 e 5 anos. Com o objetivo de verificar a prevalência de rinite atual, características sociodemográficas e a classificaçao da rinite seguindo o ARIA (Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma), os autores entrevistaram 5.018 pais e a prevalência de rinite atual foi de 43,4%, sendo que 11,7% tiveram diagnóstico médico de rinite. Rinite leve intermitente esteve presente em 30%, leve persistente 3%, moderada-grave intermitente 7% e moderada-grave persistente 5%. Crianças com rinite atual tiveram mais sibilo atual, diagnóstico médico de asma, autorrelato de alergia alimentar e história familiar de doenças alérgicas7.

Em uma coorte de nascimento em Singapura, com a participaçao de 1.237 crianças seguidas quadrimestralmente até os 18 meses foram aplicados questionários para seleçao de pacientes com sintomas nasais nas últimas duas semanas e realizados telefonemas mensais para detecçao de rinite recorrente (sintomas nas últimas 4 semanas). Foi coletado swab nasal para detecçao molecular de vírus durante os episódios de rinite. Aos 18 meses foi realizado teste cutâneo por puntura para alérgenos ambientais comuns e alimentos. Os autores encontraram que rinite recorrente/prolongada foi associada a história de atopia dos pais e presença de comorbidades como eczema e sibilância, mas sem sensibilizaçao ao teste cutâneo. A frequência de detecçao de virus respiratórios nas visitas quadrimestrais ou nos episódios de rinite nao foi diferente entre as crianças com rinite recorrente e os controles8.

Em uma avaliaçao transversal de um serviço especializado de um hospital terciário com 1.549 crianças asmáticas entre zero e 14 anos, observou-se que 74% das crianças abaixo de 2 anos tinham rinite e 36% tinham rinite alérgica com teste cutâneo positivo para pelo menos um aeroalérgeno9.

Em conclusao, há evidências que rinite alérgica em pré-escolares é frequente, e novos estudos sao necessários para o reconhecimento das doenças alérgicas e suas comorbidades em idade precoce, contribuindo para um melhor diagnóstico e tratamento adequado.

 

REFERENCIAS

1. Rotiroti G, Roberts G, Scadding GK. Rhinitis in children: Common clinical presentations and differential diagnoses. Pediatr Allergy Immunol. 2015:26:103-10.

2. Greiner AN, Hellings PW, Rotiroti G, Scadding GK. Allergic rhinitis. Lancet. 2011:378:2112-22.

3. The International Study of Asthma and Allergies in Childhood (ISAAC) Steering Committee. Worldwide variations in the prevalence of asthma symptoms: the International Study of Asthma and Allergies in Childhood (ISAAC). Eur Respir J. 1998;12:315-35.

4. Asher MI, Montefort S, Björkstén B, Lai CK, Strachan DP, Weiland SK, et al. Worldwide time trends in the prevalence of symptoms of asthma, allergic rhinoconjunctivitis, and eczema in childhood: ISAAC Phases One and Three repeat multicountry cross-sectional surveys. Lancet. 2006;368:733-43.

5. Chong Neto HJ, Rosário NA, Solé D, Latin American ISAAC Group. Asthma and Rhinitis in South America: How Different They are from Other Parts of the World. Allergy Asthma Immunol Res. 2012;4:62-7.

6. Chong Neto HJ, Rosario CS, Rosario BA, Chong FH, Grasselli EA, Silva FC, et al. Allergic rhinitis in preschool children from southern Brazil. Allergy. 2014;69:545-7.

7. Morais-Almeida M, Santos N, Pereira AM, Branco-Ferreira M, Nunes C, Bousquet J, et al. Prevalence and classification of rhinitis in preschool children in Portugal: a nationwide study. Allergy. 2013;68:1278-88.

8. Hardjojo A, Goh A, Shek LPC, Van Bever HPS, Teoh OH, Soh JY, et al. Rhinitis in the first 18 months of life: exploring the role of respiratory viruses. Pediatr Allergy Immunol. 2015:26:25-33.

9. Chong Neto HJ, Rosario NA, Westphal GC, Riedi CA, Santos HLBS. Rhinitis is also common in infants with asthma. Iran J Allergy Asthma Immunol. 2010;9:21-5.

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