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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Setembro-Outubro 2013 - Volume 1  - Número 5


CARTA AO EDITOR

Edema agudo isolado da úvula: autoinduzido e associado à inalação de maconha

Mario Geller


DOI: 10.5935/2318-5015.20130040

MD, MACP, FAAAAI, FACAAI. Membro Titular da Academia de Medicina do Rio de Janeiro.


Endereço para correspondência:

Clínica Geller de Alergia e Imunologia
E-mail: gellerm@attglobal.net


Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação desta carta.




Prezado Editor,

Edema agudo da úvula é uma condição clínica rara e frequentemente idiopática. É um evento potencial­mente fatal, pela possibilidade de causar obstrução das vias aéreas superiores. Várias causas de edema de úvula têm sido relatadas: alergia, infecção, trauma, mecânica/traumática, angioedema hereditário e reação a fármacos, incluindo inibidores da enzima conversora da angiotensina (iECA)1-4. Uvulite aguda isolada com grande edema tem sido relatada3-6. Uvulite aguda com edema pronunciado foi descrita após a inalação de canabinol (maconha)7,8. Os sintomas geralmente regridem com a administração de corticosteroides e anti-histamínicos. Relatamos dois casos recorrentes de edema agudo isolado da úvula mecanicamente autoinduzidos, com associação à inalação de maconha em um dos casos.

Caso I

Paciente masculino, caucasiano, estudante, 15 anos, com o diagnóstico de asma e rinite, alérgico a ácaros da poeira domiciliar (Dermatophagoides farinae, D. pteronyssinus, Blomia tropicalis) e a baratas. Relata que tem periodicamente episódios de estresse e que habitualmente fuma maconha. Em várias ocasiões notou autotraumatizar a úvula com a porção posterior da língua desenvolvendo odinofagia, disfonia, disfagia, e obstrução das vias aéreas superiores com dispneia. Uvulite com edema significativo da úvula ocorreu 5 vezes nos últimos 3 anos (Figura 1), necessitando de administração intra­muscular de epinefrina autoinjetora, anti-histamínicos e corticosteroides. Houve sempre progressiva e completa resolução dos quadros emergenciais em algumas horas. No último episódio houve inalação de maconha. História negativa para alergia medicamentosa. A espirometria basal revelou VEF1 com 63% do valor previsto normal e resposta pós-broncodilatadora de 15%. A citologia nasal (coloração de Hansel) evidenciou a presença de eosinófilos. A asma e rinite foram controladas com a administração da combinação formoterol-budesonida inalatória, e com o uso oral de fexofenadina e cetirizina, e furoato de fluticasona intranasal, respectivamente. Apresentava 6% de eosinofilia sanguínea (560 células/mm3). Os seguintes exames laboratoriais foram normais ou negativos: triptase sérica, complemento C4, PCR, e os outros parâmetros do hemograma com contagem de plaquetas. Painel de 30 alérgenos alimentares foi negativo em testes cutâneos de hipersensibilidade imediata, sendo empregados controles positivo (histamina) e negativo (diluente glicerinado). O paciente foi instruído para não autotraumatizar a úvula com a sua língua e não fumar maconha. Psicoterapia foi aconselhada.

 


Figura 1 - Edema agudo isolado de úvula

 

Caso II

Paciente masculino, caucasiano, advogado, 37 anos, com história de edema de úvula, prurido difuso, desidrose e estresse, de um ano de duração. Ao exame clínico havia edema e eritema pronunciados da úvula. Em várias situações de estresse notou autotraumatizar a úvula com a porção posterior da língua desenvolvendo odinofagia e disfonia. História negativa para alergia medicamentosa. Os seguintes exames laboratoriais foram normais ou negativos: hemograma completo, contagem de plaquetas, VHS, PCR, T4 livre, TSH, anti-TPO, bilirrubinas, enzimas hepáticas, proteínas (total e frações), fosfatase alcalina, glicose, hemoglobina glicosilada (A1C), e exame parasitológico de fezes. Painel de 30 alérgenos alimentares foi negativo em testes cutâneos de hipersensibilidade imediata, sendo empregados controles positivo (histamina) e negativo (diluente glicerinado). Foi controlado com a administração oral de fexofenadina e cetirizina. O paciente foi instruído para não autotraumatizar a úvula com a sua língua. Psicoterapia foi aconselhada.

Edema da úvula é raro, e ocasionalmente está associado a angioedema, urticária e anafilaxia. Em mais da metade dos casos é idiopático9. Ocasionalmente pode ser autoinduzido pelo trauma mecânico da língua na úvula. Isto pode ocorrer por estresse. A inalação de maconha é outro fator descrito na patogênese do edema agudo de úvula.

 

REFERÊNCIAS

1. Raux F, Carrat X, Pescio P, Carles D, Devars F, Traissac L. Uvular edema. Diagnostic, etiologic and therapeutic management. Rev Laryngol Otol Rhinol (Bord). 1999;120(2):111-4.

2. Goldberg R, Lawton R, Newton E, Line WS Jr. Evaluation and management of acute uvular edema. Ann Emerg Med. 1993;22(2):251-5.

3. Patel RV, Cho C, Medd C, Cresswell J. Isolated non-hereditary angioneurotic oedema of uvula (Quincke's disease) in an adolescent. adolescent. BMJ Case Rep. 2014 Apr 9; pii: bcr2013203312. doi: 10.1136/bcr-2013-203312.

4. Viana-Tejedor A, Nunez-Gil IJ. Images in clinical medicine. Isolated uvular angioedema. N Engl J Med. 2014 Apr 10;370(15):e24. doi: 10.1056/NEJMicm1309447.

5. Cohen M, Chhetri DK, Head C. Isolated uvulitis. Ear Nose Throat J. 2007;86(8):462-4.

6. Evans TC, Roberge RJ. Quincke's disease of the uvula. Am J Emerg Med. 1987; 5(3):211-6.

7. Boyce SH, Quigley MA. Uvulitis and partial upper airway obstruction following cannabis inhalation. Emerg Med (Fremantle). 2002;14(1):106-8.

8. Haddad LM. Marijuana uvula. Am J Emerg Med. 1990;8(2):179.

9. Alcoceba E, Gonzalez M, Gaig P, Figuerola E, Auguet T, Olona M. Edema of the uvula: etiology, risk factors, diagnosis, and treatment. J Investig Allergol Clin Immunol. 2010;20(1):80-3.

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