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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI
Revista oficial da Sociedad Latinoamericana de Alergia, Asma e Inmunología SLaai

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Julho-Agosto 2013 - Volume 1  - Número 4


Editorial

Diagnóstico molecular de alergia: pronto para a prática clínica?

Molecular diagnosis of allergy: ready for clinical practice?

L. Karla Arruda1; Adriana S. Moreno2; Fátima Ferreira3


DOI: 10.5935/2318-5015.20130024

1. MD, PhD. Faculdade de Medicina de Ribeirao Preto, Universidade de Sao Paulo (FMRP-USP)
2. PhD. Faculdade de Medicina de Ribeirao Preto, Universidade de Sao Paulo (FMRP-USP)
3. PhD. University of Salzburg, Austria


Endereço para correspondência:

Luisa Karla Arruda
E-mail: karla@fmrp.usp.br




O diagnóstico molecular de alergia vem se tornando cada vez mais bem estabelecido na prática de Alergia. Entretanto, muitos dos alergistas em sua prática clínica ainda têm dificuldades em definir a utilidade desta nova ferramenta no diagnóstico de alergia e em determinar as indicaçoes deste método ao invés de, ou como complemento de métodos diagnósticos tradicionais como o teste cutâneo de hipersensibilidade imediata e a dosagem sérica de anticorpos IgE contra extratos naturais. Além disso, a interpretaçao dos resultados pode ser um desafio para alguns. O diagnóstico molecular se baseia na utilizaçao de alérgenos purificados, que podem ser naturais, quando sao purificados por métodos bioquímicos e/ou imunoquímicos a partir de sua fonte alergênica natural (ex. ácaros, fungos, animais, venenos de insetos, etc.) ou recombinantes, quando sao produzidos no laboratório por tecnologia de clonagem molecular, utilizando-se vários sistemas de expressao recombinante como bactéria (ex. Escherichia coli) ou levedura (ex. Pichia pastoris).

A possibilidade de produçao de alérgenos recombinantes em larga escala e em alto grau de pureza tem facilitado de forma marcante o desenvolvimento de novos métodos para diagnóstico de alergia. Para muitos alérgenos, a purificaçao a partir da fonte natural requer grande quantidade de matéria prima, e resulta em pequenas quantidades do produto final após as várias etapas de purificaçao. Atualmente, a maior parte dos alérgenos principais, e mesmo muitos dos alérgenos menores das mais variadas fontes podem ser purificados de suas fontes naturais ou, mais frequentemente, produzidos como proteínas recombinantes, de acordo com métodos bem consolidados, de forma a possibilitar a utilizaçao desses alérgenos comercialmente em testes diagnósticos. Portanto, estamos atualmente dando passos importantes na direçao da incorporaçao da Alergia Molecular em nossa prática clínica1.

Apenas 2% das proteínas identificadas na natureza que foram sequenciadas tem propriedade de atuar como alérgenos, ou seja, induzem a produçao de anticorpos IgE e causam ativaçao de células, particularmente mastócitos e basófilos. De forma interessante, esses alérgenos pertencem a um número pequeno de famílias e possuem uma quantidade limitada de funçoes biológicas2. Esse conhecimento é importante para a avaliaçao de reatividade cruzada, para o estudo das propriedades bioquímicas, particularmente estabilidade à temperatura e à digestao em meio ácido, que sao importantes na alergia alimentar, e para definir o potencial de certas famílias de proteínas em causar reaçoes alérgicas graves, particularmente anafilaxia.

A nomenclatura de alérgenos é bem estabelecida, e se baseia na utilizaçao das três primeiras letras do gênero, a primeira letra da espécie, e um número expressado em algarismo arábico, que em geral reflete a ordem em que o alérgeno foi identificado. Por exemplo, alérgenos do leite de vaca sao designados a partir do nome científico da vaca em latim, Bos domesticus, e incluem Bos d 4 (α-lactalbumina), Bos d 5 (β-lactoglobulina), Bos d 6 (albumina sérica) e Bos d 8 (caseína); alérgenos de amendoim sao nomeados a partir de Arachis hypogea, e o painel atual compoe-se de: Ara h 1 (7S globulina, vicilina); Ara h 2 (2S albumina); Ara h 3 (11S globulina, legumina); Ara h 4 (11S globulina, legumina); Ara h 5 (profilina); Ara h 6 (2S albumina); Ara h 7 (2S albumina); Ara h 8 (PR10, homólogo de Bet v 1); Ara h 9 (nsLTP); e Ara h 10 (18 KDa Oleosina). Originalmente, alérgenos eram designados por números consecutivos. Nas últimas décadas, o aumento no número de sequências disponíveis e os avanços na bioinformática tornaram possível a classificaçao em famílias de alérgenos, cujos membros sao relacionados evolutivamente, com sequências e estruturas semelhantes, e em alguns casos, apresentando reatividade cruzada. Além disso, há uma nomenclatura para moléculas semelhantes e muito próximas de um mesmo alérgeno, com designaçao de 4 números adicionais após um ponto colocado ao final da designaçao básica do alérgeno (p. ex., Bet v 1.0101). Os dois primeiros números correspondem a isoalérgenos, definidos como alérgenos de uma única espécie, com massa molecular semelhante, funçao bioquímica semelhante, e identidade de sequência > 67%. O terceiro e o quarto dígitos distinguem variantes diferentes de um mesmo isoalérgeno, que sao definidas como proteínas com identidade de sequência maior que 90%. Os valores de 67% e 90% sao limites arbitrários, que servem como guia. A designaçao apropriada de cada alérgeno é feita considerando-se uma avaliaçao caso a caso. O Subcomitê de Nomenclatura de Alérgenos da International Union of Immunological Societies (IUIS), sob os auspícios da World Health Organization (WHO) e da própria IUIS, mantém a nomenclatura sistemática das proteínas alergênicas. Todos os novos alérgenos identificados sao submetidos a este Comitê, e após cuidadosa avaliaçao e aprovaçao, novos alérgenos sao entao incorporados à base de dados da IUIS, disponível em www.allergen.org3.

Em recente Consenso, grupo de experts da World Allergy Organization (WAO) revisou estudos com base em evidência sobre a utilizaçao do diagnóstico molecular de alergia, e destaca três aspectos principais para auxiliar na decisao de usar esta tecnologia para diagnóstico: (1) possibilidade de distinguir entre sensibilizaçao primária, genuína, e sensibilizaçao por reatividade cruzada (o que nao pode ser feito com extratos naturais), ajudando o clínico a decidir se um alérgeno, poucos alérgenos relacionados ou múltiplos alérgenos extensamente diferentes devem ser considerados; (2) determinar se as reaçoes alérgicas sao causadas por alérgenos associados a risco de anafilaxia grave ou a reaçoes mais leves, particularmente na área de alergia alimentar, podendo diminuir a necessidade de testes de provocaçao oral e melhorar as recomendaçoes para os pacientes; (3) auxiliar na escolha dos pacientes e dos alérgenos mais apropriados para imunoterapia bem sucedida. O Consenso indica que a quantidade de informaçoes obtidas com o diagnóstico molecular de alergia pode ser complexa, especialmente pela progressao rápida de evidência nesta área, e enfatiza a importância de programas educativos de treinamento de alergistas no uso e interpretaçao desta nova tecnologia, devendo ser os resultados interpretados sempre à luz da história clínica do paciente1.

O diagnóstico molecular de alergia pode ser realizado pela medida de anticorpos IgE a alérgenos individuais, tecnologia denominada de singleplex, ou através de plataforma desenvolvida para medida simultânea de IgE para painel de alérgenos purificados, naturais ou recombinantes, de variadas fontes alergênicas, em um único ensaio, tecnologia designada como multiplex1. No Brasil, dispomos comercialmente dos sistemas ImmunoCAP e ImmunoCAP-ISAC (Immuno-Solid Phase Allergen Chip) (Thermo Fisher), que sao plataformas singleplex e multiplex, respectivamente. O ImmunoCAP é um método totalmente automatizado, que baseia-se no uso de fase sólida com alta capacidade de ligaçao ao alérgeno, na qual é colocada quantidade de alérgeno em excesso, tornando-se um método de alta sensibilidade, reprodutível, cujo uso permite que quantidades bem pequenas de IgE possam ser detectadas, com mínima ou nenhuma interferência de anticorpos específicos de outros isotipos, particularmente IgG. Como é um método quantitativo, pode ser utilizado para monitorizaçao da resposta IgE ao longo do tempo. O sistema ImmunoCAP atualmente disponibiliza 101 alérgenos individuais (36 alimentares), incluindo CCDs (Cross-reactive Carbohydrate Determinants, determinantes carbohidratos com reatividades cruzada), para medida de IgE específica. Entretanto, apresenta a desvantagem de serem necessários 40 microlitros de soro para cada teste individual, o que pode limitar a seleçao de alérgenos a serem testados, particularmente em crianças pequenas. O ISAC é uma plataforma de imunoensaio miniaturizada, onde alérgenos sao imobilizados em um chip de microarray. O ensaio consiste em uma lâmina de vidro coberta com polímero, que contém 4 microarrays, sendo portanto adequada para testar simultaneamente amostras de 4 pacientes. Sao feitos spots em triplicata de cada alérgeno, e estes sao imobilizados por ligaçao covalente ao chip. A plataforma atual do ISAC possibilita detecçao simultânea de anticorpos IgE a 112 alérgenos diferentes, das mais variadas fontes, utilizando apenas 30 a 40 microlitros de soro ou plasma, que podem ser obtidos de sangue venoso ou capilar. O teste é realizado num total de tempo de menos de 4 horas; os resultados sao obtidos a partir de uma curva de calibraçao e expressos numa faixa de 0,3 a 100 ISAC Standardized Units (ISU-E), dando uma indicaçao semiquantitativa dos níveis de anticorpos IgE. A plataforma ISAC utiliza uma quantidade pelo menos 100.000 vezes menor de alérgeno, quando comparada ao sistema ImmunoCAP, o que diminui sua sensibilidade quando a quantidade de IgE específica é muito baixa, podendo também haver interferência de outros isotipos, particularmente quando há níveis muito elevados de IgG específica, como acontece durante a Imunoterapia. Por outro lado, uma vantagem é que o método nao sofre interferência de níveis muito elevados de IgE total. Foi notada maior variabilidade inter-ensaio quando as quantidades de IgE sao baixas, entre 0,3 e 1 ISU-E, portanto o ISAC nao é geralmente recomendado para monitorizaçao quantitativa de níveis de anticorpos IgE ao longo do tempo1. Mais recentemente, Lupinek e cols.4 relataram a expansao do método de microarray para conter mais de 170 moléculas das mais variadas fontes. Esta tecnologia, que tem sido utilizada para avaliar o perfil de reatividade IgE ao longo do tempo em estudos de coorte desenvolvidos na Europa, é designada como chip MeDALL de alérgenos4.

O potencial do diagnóstico molecular de alergia tem especial valor na avaliaçao de pacientes com alergia alimentar, em particular alergia a frutas e legumes, incluindo avaliaçao das síndromes pólen-alimento e látex-alimento. Algumas famílias de alérgenos de plantas foram identificadas como tendo alto potencial de induzir anafilaxia5. Sao elas: a superfamília das prolaminas, que inclui as proteínas de transferência de lipídeos nao-específicas (nsLTPs), alfa-amilase e inibidores de proteases; as proteínas de estocagem, como a 2S albumina; e a família cupins de proteínas, que inclui proteínas de estocagem de sementes como as vicilinas e leguminas. Em contraste, proteínas PR-10, que sao homólogas ao alérgeno principal de pólen de Bétula Bet v 1 e importantes componentes associados a reatividade cruzada a extratos alergênicos, em geral causam reaçoes alérgicas locais à ingestao, como a síndrome da alergia oral. De forma semelhante, profilinas (por exemplo, Bet v 2), e CCDs estao presentes em muitas plantas, e interferem com a especificidade da determinaçao de anticorpos IgE contra extratos alergênicos. Proteínas PR-10 e profilinas sao em geral lábeis e facilmente degradáveis por calor ou acidez, e acredita-se que pelo menos em parte esta seja a razao da associaçao com sintomas alérgicos mais leves. A sensibilizaçao a CCDs na maioria dos casos nao tem relevância clínica. Para proteínas PR-10, profilinas e CCDs, a sensibilizaçao primária é em geral derivada de polens ou venenos de insetos, e raramente de alimentos. Por outro lado, LTPs e proteínas de estocagem sao proteínas estáveis ao calor e à digestao, e portanto têm elevado potencial para causar reaçoes anafiláticas graves. Acredita-se que essas proteínas sao indutoras da sensibilizaçao primária através do alimento, responsável pelas reaçoes graves. Desta forma, a análise do perfil de reatividade IgE para as diferentes famílias de alérgenos de plantas pode auxiliar na definiçao de riscos, o que os métodos tradicionais nao permitem realizar5.

Um exemplo excelente da utilidade do diagnóstico molecular de alergia é o uso da ômega-5-gliadina, que pertence à família das prolaminas, para o diagnóstico de Anafilaxia Induzida por Exercício Dependente de Trigo5. Em extrato natural de trigo, a quantidade de ômega-5-gliadina é muito pequena, e desta forma, os testes convencionais para medir anticorpos IgE para trigo podem ser negativos ou resultar em valores muito baixos nesta condiçao. A medida de IgE para ômega-5-gliadina (alérgeno Tri a 19) é essencial para o diagnóstico, pois a presença de IgE específica para esta proteína tem alto valor preditivo para o desenvolvimento de Anafilaxia Induzida por Exercício Dependente de Trigo. Estudos recentes de Santos e cols.6,7, do grupo do Prof. Fabio Castro, em colaboraçao com o grupo da Profª. Fatima Ferreira em Salzburg, Austria, relataram a identificaçao do primeiro alérgeno de mandioca (Manihot esculenta), designado como Man e 5. Este alérgeno causa resposta IgE em mais de 70% de pacientes brasileiros com reaçoes alérgicas à ingestao de mandioca, e tem reatividade cruzada com o alérgeno de látex Hev b 5. De forma interessante, os dados com Man e 5 recombinante, produzida em E. coli, sugerem que esta proteína tem papel na síndrome látex-alimento, sendo o látex provavelmente o sensibilizante primário7. Este conhecimento tem implicaçoes importantes, pois pacientes alérgicos a látex que apresentam exposiçao à mandioca (por exemplo, viajantes que vao a locais onde mandioca é extensamente usada) podem ter risco aumentado de desenvolver reaçoes alérgicas a este alimento. Portanto, conhecer se o paciente é alérgico a Hev b 5 pode melhorar as recomendaçoes de evitar mandioca, que pode também ser ingrediente frequente em alimentos industrializados7. Nos casos de alergia a amendoim, a presença de sensibilizaçao IgE a proteínas de estocagem como Ara h 1 (vicilina), Ara h 2 (2S albumina), Ara h 3 (legumina), Ara h 6 (2S albumina) e Ara h 9 (nsLTP) pode identificar pacientes com risco de reaçoes alérgicas graves, enquanto que sensibilizaçao a Ara h 8 (proteína PR-10, homóloga à Bet v 1), na maioria dos casos adquirida por reatividade cruzada, está associada a reaçoes leves como síndrome da alergia oral. Quando nenhuma IgE é detectável para os alérgenos recombinantes de amendoim, mas o paciente apresenta IgE para o extrato de amendoim total, a possibilidade de reatividade IgE para CCDs deve ser considerada. IgE anti-CCD pode ser medida usando horseradish peroxidase ou bromelaina (Ana c 2 ou MUXF3), que sao ricos em CCDs, e disponíveis tanto no sistema ImmunoCAP (MUXF3 CCD, bromelaina, código o214) como na plataforma ISAC (nMUXF3 CCD, bromelaina). A conclusao dessas observaçoes é que para muitos pacientes sensibilizados a componentes de plantas o diagnóstico molecular de alergia possibilita a identificaçao de perfis de sensibilizaçao individuais, que poderao auxiliar em prever o risco de anafilaxia5.

Na área de alergia a ácaros, importante fonte de alérgenos em nosso meio, avanços recentes utilizando-se métodos quantitativos de diagnóstico molecular de alergia têm consolidado observaçoes de que as respostas a D. pteronyssinus na maioria dos indivíduos alérgicos seguem uma hierarquia. A ligaçao IgE aos alérgenos principais de D. pteronyssinus Der p 1 e Der p 2 constitui 50-60% da ligaçao IgE a todos os alérgenos deste ácaro da poeira domiciliar, para essencialmente todos os pacientes alérgicos a ácaros8. Além disso, em nosso meio e em muitos outros locais do mundo, mais de 80% dos pacientes alérgicos a ácaros têm anticorpos IgE para Der p 1 e Der p 2. Os alérgenos de reatividade intermediária Der p 4, 5, 7 e 21, induzindo cada um deles resposta IgE em aproximadamente 50% dos pacientes, ligam-se a IgE constituindo 30% do título total de ligaçao em relaçao a todos os alérgenos em conjunto. Apenas uma pequena frequência e proporçao de ligaçao IgE permanece para os alérgenos remanescentes8. Este padrao proporcional consistente de reatividade IgE provê excelente plataforma para seleçao de alérgenos recombinantes para imunoterapia. É possível que uma formulaçao contendo apenas Der p 1 e Der p 2 seja eficaz para a grande maioria dos pacientes. De forma interessante, o padrao de ligaçao a IgE dos alérgenos de ácaro foi o mesmo em crianças com asma atendidas em Pronto-Socorro com crise aguda, quando comparado ao perfil de crianças e adultos com asma controlada, e em indivíduos com doença persistente quando comparados a pacientes com asma intermitente. Foi também demonstrado que a probabilidade de crianças com alergia a ácaros da poeira domiciliar desenvolverem asma é proporcional aos títulos de IgE antiácaro, e que um prognóstico pobre está associado ao desenvolvimento precoce de anticorpos IgE e sensibilizaçao precoce8.

O estudo da reatividade cruzada IgE é uma área em que tem havido grandes avanços. Entende-se por reatividade cruzada o fenômeno de um anticorpo IgE reconhecer, ligar-se e induzir um resposta imune a moléculas alergênicas semelhantes (homólogas) presentes em espécies diferentes. Por exemplo, a ligaçao de um anticorpo IgE tanto ao alérgeno Bet v 1 de pólen de bétula, como aos alérgenos Mal d 1 de maça, e Cor a 1 de avela ocorre devido à semelhança estrutural entre essas proteínas, tanto em termos de sequência primária de aminoácidos (55% a 67% de identidade com Bet v 1, respectivamente) como de estrutura tridimensional. Estudo recente de Roulias e cols.9, do grupo da Profª. Fátima Ferreira, demonstrou que moléculas derivadas de Mal d 1 e Cor a 1, desenvolvidas por site-directed mutagenesis com o objetivo de alterar a estrutura tridimensional destas moléculas, apresentaram ligaçao a IgE marcadamente reduzida, podendo ser consideradas como moléculas candidatas para imunoterapia tanto em pacientes com alergia a pólen de bétula como em pacientes com alergia alimentar10. É importante destacar que, no caso da síndrome pólen-alimento, essa resposta IgE adquirida por reatividade cruzada se manifesta clinicamente por reaçoes locais leves, como prurido e edema de mucosa oral, e apenas em raras ocasioes como urticária ou mesmo anafilaxia9.

Muitas outras proteínas alergênicas apresentam homólogos em espécies diversas. Nesse grupo, podem ser incluídas a tropomiosina e a parvalbumina. A tropomiosina é alérgeno principal do camarao, podendo causar reaçoes alérgicas graves à ingestao deste alimento, que apresenta homólogos com alto grau de identidade de sequência (80 a 82%) em ácaros (alérgeno Der p 10) e baratas (alérgenos Bla g 7 e Per a 7)11-13. De forma semelhante, a parvalbumina é um alérgeno conservado em várias espécies de peixes, associado à presença de reatividade cruzada IgE e sintomas clínicos com ingestao de vários peixes, dependentes da quantidade de parvalbumina presente. É importante destacar que a tropomiosina e a parvalbumina sao proteínas muito estáveis, sendo resistentes à temperatura e à digestao em meio ácido. Alérgenos de animais, incluindo cachorro, gato, cavalo, boi, rato, camundongo e outros sao frequentemente pertencentes à família das lipocaínas, que apresenta homólogo em barata (Bla g 4 e Per a 4) (Tabela 1). Questao importante e ainda nao completamente resolvida é a relevância clínica da reatividade cruzada IgE. Por exemplo, nao é incomum na prática clínica que pacientes com asma e/ou rinite, com testes cutâneos positivos para extratos de ácaros e baratas, apresentem teste positivo também para camarao; curiosamente, alguns desses pacientes relatam que nunca comeram camarao ou outros crustáceos ou moluscos. Pode-se interpretar que o teste positivo para camarao seria causado por reatividade cruzada a ácaros e baratas, possivelmente a alérgenos compartilhados, como a tropomiosina. Entretanto, nao se sabe se estes pacientes com sensibilizaçao primária a ácaros e baratas teriam risco maior de apresentar reaçoes alérgicas à ingestao de camarao, e se uma resposta IgE para tropomiosina teria um valor preditivo para reaçoes mais graves. Em pacientes com testes de provocaçao oral positivos para camarao, Yang e cols. demonstraram que a medida de IgE para tropomiosina de camarao teve maior especificidade do que a medida de IgE para camarao14.

 

 

Uma área de particular interesse em nosso meio é o estudo da resposta IgE a alérgenos que apresentam homólogos em parasitas. Sabe-se que parasitas intestinais, particularmente helmintos, induzem resposta IgE e eosinofilia. Este tipo de resposta se assemelha bastante ao padrao de resposta Th2 encontrado em doenças alérgicas. Nos últimos anos, tem sido bem documentado que parasitas têm moléculas homólogas em famílias de alérgenos, incluindo lipocalinas, proteínas EF-hand, superfamília cupin, profilinas, enolase (fungos e látex), albumina (gato), tripsina (alérgenos de ácaros do grupo 3), paramiosina (Blomia tropicalis Blo t 11) e tropomiosinas, com extensa semelhança entre essas moléculas15. Santos e cols.16 demonstraram que tropomiosina do parasita Ascaris lumbricoides compartilha alto grau de identidade de sequência (em torno de 70%) com tropomiosinas de outros invertebrados como ácaros, baratas e camarao. Tropomiosina de A. lumbricoicdes é abundante tanto no verme adulto como na larva L3, que é o estágio de passagem pulmonar do parasita. A identidade de sequência é ainda maior com tropomiosinas de outros parasitas como filaria e Anisakis simplex (alérgeno Ani s 3, com 97% de identidade de sequência com tropomiosina de A. lumbricoides). Há descriçao de reaçoes alérgicas graves incluindo anafilaxia com ingestao de peixe infectado com A. simplex, que tem sido atribuídas à presença de IgE para tropomiosina. Pode-se detectar anticorpos IgE antitropomiosina de A. simplex Ani s 3, e anti Ani s 1 na plataforma ISAC. Estudos recentes de Santiago e cols.17 revelaram evidência de reatividade cruzada IgE entre tropomiosina de filaria e de ácaro Dermatophagides pteronyssinus (alérgeno Der p 10)16. De forma semelhante, Santiago e cols.18 também demonstraram que a glutationa-S-transferase (GST) de filaria e de barata Blattella germanica (alérgeno Bla g 5) têm epitopos comuns que podem induzir sensibilizaçao alérgica cruzada. Mais recentemente, Acevedo e cols.19, do grupo do Dr. Luis Caraballo, na Colômbia, em colaboraçao com o grupo da Profª. Fátima Ferreira, identificaram GST de Ascaris lumbricoides com suas isoformas e demonstraram que este novo alérgeno de A. lumbricoides apresenta ligaçao à IgE de pacientes asmáticos. A. lumbricoides GST1 apresenta similaridade de sequência de aminoácidos de 50% com GST de barata (Bla g 5), 43% com o alérgeno Blo t 8 de Blomia tropicalis e 48% com o alérgeno de D. pteronyssinus Der p 8, e uma boa correlaçao foi encontrada entre IgE para GST de A. lumbricoides e GSTs Bla g 5 e Blo t 819. Muitos investigadores acreditam que a resposta IgE a alérgenos evolveu de resposta inicial de defesa contra parasitas, e a teoria é que após os parasitas terem sido erradicados ou se tornado muito infrequentes em países desenvolvidos, o sistema imune redirecionou a resposta IgE a antígenos ambientais inóquos, particularmente a moléculas compartilhadas15. Entretanto, em muitas regioes do mundo, incluindo o Brasil, infecçoes por parasitas ainda sao muito prevalentes. Estima-se que atualmente parasitas infectem 1,4 bilhoes de indivíduos no mundo inteiro, correspondendo a cerca de um terço da populaçao mundial. É possível que a resposta policlonal IgE induzida durante infecçoes ativas por parasitas possa potencialmente levar a respostas de reatividade cruzada IgE dirigida para alérgenos inalantes e alimentares, que poderao ter significância clínica, no sentido de promover o desenvolvimento de alergia. Entretanto, a questao se infecçoes por parasitas promovem ou protegem do desenvolvimento de alergia e asma permanece controversa20.

Neste número do BJAI, nosso grupo faz uma revisao de estudos recentes que avaliaram o uso de alérgenos recombinantes para diagnóstico e para imunoterapia alérgeno-específica (Arruda e cols.21). Os resultados sao promissores, e acredita-se que alérgenos recombinantes vao ser cada vez mais incorporados à prática clínica do alergista. O estudo de Dal Belo e cols.22 revela elevada frequência de rinite em adultos jovens vivendo em Passo Fundo, na regiao Sul do Brasil. Dentre os pacientes com rinite, houve frequência elevada de sensibilizaçao a ácaros e polens, destacando a importância desses alérgenos no Sul do Brasil. Em outro artigo deste número do BJAI, Laura Araújo e Nelson Rosário23 fazem uma avaliaçao de diagnóstico molecular de alergia por ISAC, focalizando em alérgenos alimentares, entre crianças e adolescentes com rinite alérgica e asma, sem história de alergia alimentar. De forma interessante, os autores relatam detecçao de IgE específica para alérgenos alimentares em aproximadamente 26% dos pacientes, sendo os alérgenos mais frequentemente reconhecidos a tropomiosina de camarao e o alérgeno de pêssego (Pru p 3). Provavelmente, a presença de anticorpos IgE para tropomiosina de camarao ocorreu por reatividade cruzada IgE a tropomiosinas de ácaro (alérgeno Der p 10) e/ou baratas (alérgenos Per a 7 e Bla g 7). Esta hipótese é reforçada pelo fato de que a reatividade a Der p 10 entre esses pacientes foi de 15,8%, enquanto que a reatividade a tropomiosinas de camarao foi muito semelhante, de 15,8% a 16,8%. Já o alérgeno Pru p 3, derivado do pêssego, é uma proteína LTP (lipid transfer protein) e considerada como um marcador de gravidade para reaçoes alérgicas alimentares. É possivel que neste caso a sensibilizaçao primária tenha sido induzida por alérgeno homólogo em pólen23. Portanto, a possibilidade de identificar sensibilizaçao a moléculas compartilhadas por diferentes fontes alergênicas por diagnóstico molecular de alergia tem resultado em uma compreensao crescente de sintomas clínicos complexos e polisensibilizaçao. Ainda neste número do BJAI, Mario Geller24 faz um relato muito interessante de uma paciente com anafilaxia induzida por exercício dependente de alimento. Embora tenha ficado muito evidente pela história clínica que o alimento envolvido foi o camarao, a dosagem de IgE específica para camarao foi negativa, e nao havia reatividade cruzada clinicamente evidente com outros crustáceos. É pouco provável que haja sensibilidade à tropomiosina nesta paciente descrita, entretanto uma possibilidade seria de haver uma resposta IgE a outros alérgenos de camarao, como Arginina-kinase (AK, alérgeno Pen m 2), Proteína de ligaçao ao Cálcio Sarcoplasmática (SCP, alérgeno Pen m 4) e Cadeia Leve da Miosina (MLC)25. Os alérgenos de camarao tropomiosina (Pen m 1), Arginina-kinase (Pen m 2) e Proteína de ligaçao ao Cálcio Sarcoplasmática (Pen m 4) estao disponíveis na nova versao da plataforma ISAC com 112 alérgenos. Seria esta uma situaçao homóloga à Anafilaxia Induzida por Exercício Dependente de Trigo e alérgeno Tri a 19?

Em conclusao, ainda temos muito a investigar sobre diagnóstico molecular de alergia. Os dados obtidos com esta tecnologia podem ajudar muito, entretanto podem ainda nao ser definitivos em determinar prognóstico, riscos e formas ideais de tratamento. É possível que a análise de epitopos possa resultar em maior precisao diagnóstica que almejamos26.

 

REFERENCIAS

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