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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Abril-Junho 2018 - Volume 2  - Número 2


Comunicações Clínicas e Experimentais

Uso de leite processado em altas temperaturas por paciente com alergia ao leite de vaca - relato de caso

Use of milk processed at high temperatures by a patient with cow's milk allergy: case report

Renata Magalhães Boaventura; Raquel Bicudo Mendonça; Roseani da Silva Andrade; Elaine Cristina de Almeida Kotchetkoff; Roseli Oselka Saccardo Sarni


Universidade Federal de São Paulo, Disciplina de Alergia e Imunologia Clínica - São Paulo, SP, Brasil


Endereço para correspondência:

Renata Magalhães Boaventura
E-mail: renata.mboaventura@hotmail.com


Submetido em: 19/03/2018
Aceito em: 23/03/2018

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.

RESUMO

OBJETIVO: Relatar a evolução clínica de um escolar com alergia ao leite de vaca (ALV) que fez uso de leite de vaca processado em altas temperaturas (LVPAT).
DESCRIÇÃO: H.B.M., sexo masculino, 7 anos, com ALV IgE mediada diagnosticada com 1 ano e 3 meses. Aos 2 anos foi submetido a teste de provocação oral (TPO) aberto para leite de vaca (LV) in natura, evoluindo com urticária, congestão nasal e vômito após a primeira dose (1 mL). Mãe relatou alguns episódios de exposição acidental ao LV acompanhados de sintomas. As Imunoglobulinas E para LV e frações mantiveram-se elevadas (IgE leite total: 4,69 KU/L) até os 6 anos, quando a criança realizou TPO com LVPAT, sob a forma de bolo, evoluindo sem intercorrências. Passou a consumir diariamente uma porção do bolo contendo leite processado durante 6 meses. Aos 7 anos e com IgEs específicas mais baixas (IgE específica leite total: 2,2 KU/L), realizou TPO com LV in natura sem sintomas, sendo liberado na dieta.
COMENTÁRIOS: O uso do leite de vaca processado em altas temperaturas em pacientes com ALV IgE mediada é uma estratégia promissora com impacto na tolerância futura ao alimento, tendo resultados favoráveis com ênfase na qualidade de vida e inclusão social. No entanto, vale ressaltar a importância da avaliação individualizada dos pacientes e a segurança da equipe na aplicação desses protocolos, além de levar em consideração que a alergia pode ser transitória, mesmo sem o uso do leite processado.

Palavras-chave: Hipersensibilidade a leite, hipersensibilidade alimentar, diagnóstico.




INTRODUÇÃO

A alergia alimentar (AA) é caracterizada por eventos adversos de uma resposta imunológica após exposição a determinado(s) alimento(s)1. Dentre as alergias alimentares, a alergia ao leite de vaca (ALV) é a mais frequente, e atinge de 2 a 3% das crianças que vivem em países desenvolvidos2.

O tratamento da ALV baseia-se na exclusão do leite de vaca (LV) e seus derivados3. A ALV geralmente é transitória e a maioria dos pacientes passa a tolerar o alimento até os três anos de idade. No entanto, cerca de 20% dos pacientes com ALV permanecem alérgicos durante um período mais longo4.

Estudos têm elucidado que o consumo de LV processado em altas temperaturas (LVPAT), por exemplo, pode ser tolerado por algumas crianças, pois o processo de cocção desse alimento pode diminuir a sua alergenicidade5,6. Isso se deve ao fato de alguns componentes do LV serem termosensíveis, como a α-lactoalbumina e a β-lactoglobulina. Além disso, esses componentes, quando combinados a outras matrizes de alimentos como o trigo, podem diminuir a sua disponibilidade e alergenicidade7,8. A caseína, no entanto, é mais termorresistente7,8.

O Teste de Provocação Oral Duplo Cego Placebo Controlado (TPODCPC) é considerado padrão ouro para o diagnóstico da alergia alimentar ou para verificar a aquisição de tolerância9. O TPO também pode ser realizado com LVPAT, devendo considerar a quantidade de proteína, tempo e temperatura da cocção, sendo utilizado 1,3 g de proteína do LV por porção em preparações assadas por 30 minutos a 180 °C40,11.

Quando o TPO com LVPAT for negativo, é possível incluir na dieta o consumo diário de uma receita contendo as mesmas quantidades de proteína do alimento testado, o que pode favorecer a aquisição futura de tolerância ao LV in natura5,6.

O objetivo deste trabalho é relatar a evolução clínica de um escolar com ALV que fez uso de LVPAT.

 

RELATO DO CASO

H. B. M., sexo masculino, 7 anos. Aleitamento materno exclusivo por 21 dias. Na terceira semana de vida foi introduzida fórmula infantil à base de leite de vaca (FILV) e o lactente apresentou vômitos imediatos. A mãe suspendeu a fórmula e prosseguiu com aleitamento materno sem a exclusão de LV e derivados de sua dieta.

Aos 11 meses houve uma nova tentativa de introdução de FILV com a ocorrência de vômitos e pápulas hiperemiadas na pele, sendo orientada a exclusão completa de produtos contendo LV e a manutenção do aleitamento materno sem que a mãe fizesse dieta de exclusão.

Com 1 ano e 1 mês, foi prescrito pelo alergologista uma fórmula extensamente hidrolisada e orientada a interrupção do aleitamento materno. A criança foi então encaminhada para o Ambulatório de Alergia e Imunologia Clínica da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Na primeira consulta na UNIFESP, em junho de 2011, quando estava com 1 ano e 3 meses, foi relatado pela mãe que sempre que a criança tinha contato com algum alimento contendo LV apresentava pápulas na pele, vômitos e tosse. Os sintomas cessaram com o uso da fórmula extensamente hidrolisada.

Com 2 anos e 1 mês o paciente foi submetido a um TPO aberto para LV in natura, e evoluiu com urticária, congestão nasal e vômito após a primeira dose (1 mL).

Após 15 dias, realizou TPO aberto para soja que foi negativo, sendo liberado o consumo de bebida de soja original enriquecida com cálcio como substituto ao LV. O paciente teve o crescimento recuperado durante o período de exposição regular à soja (Figura 1).

 


Figura 1 Curva de estatura por idade

 

Devido à ocorrência de reações por ocasião de exposições acidentais ao LV, até os 5 anos de idade não foi realizado nenhum TPO.

Aos 5 anos foi submetido a um TPO com LVPAT, cuja receita utilizada foi um bolinho, onde evoluiu, nas primeiras porções, com discreto edema e eritema de lábios que melhorou espontaneamente. Devido aos sintomas terem sido discretos e melhorados sem uso de medicamentos, o teste foi inicialmente considerado negativo, sendo solicitado que o paciente consumisse um bolinho por dia com o intuito de verificar se haveria reprodutibilidade das reações. Em casa a criança continuou apresentando edema discreto nos lábios, evoluindo com dispneia, chiado e febre (37,8 °C) após 4 dias do teste, procurou um pronto-atendimento, onde foi orientado a parar com o consumo do bolinho. Por isso, na consulta subsequente ao TPO (uma semana de intervalo), o teste foi considerado positivo devido aos relatos da mãe, sendo reprogramado para 2 meses. Entretanto, devido ao paciente manter exames de IgEs específicas elevados (Figura 2), e tendo apresentado sintomas no último teste, o novo TPO com LVPAT foi programado para 1 ano após o primeiro.

 


Figura 2 IgEs específicas para leite de vaca e frações

 

Com 6 anos e 6 meses realizou novo TPO com LVPAT sem intercorrências, sendo assim liberado o consumo na dieta, pois não houve relatos sobre reações em casa.

Após 6 meses consumindo uma porção do bolinho por dia, e com IgEs específicas mais baixas, realizou TPO para LV in natura, sem apresentar sintomas.

 

DISCUSSÃO

A ALV pode ser transitória, mas alguns pacientes persistem com o quadro por mais tempo4. O uso do LVPAT vem sendo muito estudado, pois algumas crianças não apresentam reações ao alimento oferecido dessa forma, com impacto positivo na qualidade de vida e na chance futura de aquisição de tolerância11,12.

Estudo envolvendo 100 crianças com ALV persistente, com média de idade de 7,5 anos, mostrou que 68 toleraram o LVPAT e, após o uso por três meses do LV na forma processada, tiveram redução nos resultados do teste cutâneo por puntura, e níveis mais elevados de IgG4 específicos para caseína11.

Outro estudo comparou a aquisição de tolerância ao leite in natura entre dois grupos. Um introduziu na dieta o LVPAT após TPO negativo (n = 70), e o outro seguiu com dieta de restrição tanto da forma processada quanto in natura do leite (n = 60). 59% das crianças que consumiram a forma processada do leite apresentaram tolerância a sua forma in natura, contra 22% das crianças do grupo com dieta restrita12.

Em estudo retrospectivo (n = 35), 83% das crianças que tinham sido submetidas a TPO com LVPAT não apresentaram sintomas. Este mesmo estudo também mostrou que uma pápula inferior a 12 mm de diâmetro no teste cutâneo por puntura com LV total e inferior a 9 mm no teste com caseína, cursava com uma chance 90% maior de um TPO negativo com LVPAT13.

Pesquisa recente comparou o teste cutâneo por puntura com os valores de IgEs específicas a LV e frações entre um grupo que não reagia ao LVPAT e outro que reagia. No grupo não reativo os resultados do teste cutâneo para α-lactoalbumina (p = 0,01) e caseína (p = 0,004) e a IgE específica para caseína (p = 0,05) foram significativamente menores comparados aos do outro grupo6.

Revisão sistemática foi desenvolvida com o objetivo de avaliar se a introdução de ovo ou leite processados em altas temperaturas na dieta de crianças com alergia a esses alimentos anteciparia a aquisição de tolerância. Foram identificados 851 e 2816 artigos de ovo e leite, respectivamente. No entanto, somente 3 estudos com ovo, e 3 com LV preencheram os critérios de inclusão pré-estabelecidos. O estudo concluiu que os produtos processados em altas temperaturas aumentaram a probabilidade da resolução de alergia ou contribuíram para a aceleração da resolução. No entanto, quando analisados sistematicamente, todos os estudos foram classificados como fracos por serem observacionais e sem um grupo controle apropriado14.

De acordo com o relato de caso apresentado, o paciente tinha níveis de IgEs específicas ao LV que oscilavam antes de iniciar o uso do LVPAT. Após 6 meses utilizando diariamente o bolinho contendo o leite processado termicamente, foi possível programar um TPO para leite in natura, sendo que o resultado deste foi negativo, ou seja, o paciente passou a tolerar todas as formas do alimento envolvido. Entretanto, apesar do uso do LVPAT ter impacto na aquisição futura de tolerância ao LV in natura, a ALV geralmente é transitória, e mais de 50% das crianças entre 5 e 10 anos de idade deixam de ser alérgicas ao LV naturalmente, o que nos leva a questionar se este paciente poderia ter voltado a tolerar o LV mesmo sem ter feito uso do LVPAT15.

Embora o uso do LPVAT seja uma terapia promissora, que pode contribuir para a aceleração do processo de tolerância oral ao leite de vaca, apresentando resultados favoráveis, com ênfase na qualidade de vida e inclusão social, é importante ter cautela na sua preconização na prática clínica, devido ao risco de reações, sendo importante a avaliação individualizada dos pacientes e a segurança da equipe na aplicação desses protocolos16.

 

REFERÊNCIAS

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14. Lambert R, Grimshaw KEC, Ellis B, Jaitly J, Roberts G. Evidence that eating baked egg or milk influences egg or milk allergy resolution: a systematic review. Clin Exp Allergy. 2017;47(6):829-37.

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