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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Janeiro-Março 2018 - Volume 2  - Número 1


Editorial

Crise aguda de asma em crianças na emergência: estamos seguindo as diretrizes?

Acute asthma in children in the emergency room: are we following the guidelines?

Herberto José Chong Neto


Professor Adjunto de Pediatria, Universidade Federal do Paraná, UFPR




Crise aguda de asma representa 5% dos atendimentos nos serviços de emergência, sendo a terceira causa de consulta por afecções respiratórias1. Diretrizes recomendam que, na emergência, a criança em crise de asma seja rapidamente avaliada para sua gravidade, presença de sinais e sintomas de alarme, grau de controle da asma e medida do pico de fluxo expiratório, com interpretação dos seus resultados. O emergencista deve ainda administrar broncodilatadores ß2-agonistas através de aerossol dosimetrado com espaçadores, prescrever na ocasião da alta um curto curso de corticosteroide oral para o domicílio e, quando necessário, encaminhar os casos de maior complexidade ao especialista em asma1.

O desempenho de médicos de países europeus em relação às recomendações dos consensos foi diferente entre os países, embora muitos médicos tenham adotado as recomendações estabelecidas pelas guias. Um dos exemplos, o padrão inflamatório da asma, foi considerado menos relevante para médicos da Alemanha e Eslováquia3.

No Brasil, quando da aplicação de um questionário padronizado aos pais de lactentes com episódios de sibilância no primeiro ano de vida em Curitiba e São Paulo, que tiveram prevalência e gravidade dos episódios semelhantes, foram observadas diferenças no tratamento, especialmente no uso de corticosteroides orais, 16% e 41,1%, respectivamente, demonstrando uma discrepância no atendimento, e que as diretrizes não vêm sendo seguidas4.

Cordeiro e cols. realizaram estudo sobre asma para avaliar o conhecimento, atitudes e práticas de pediatras que atuavam em serviços públicos hospitalares na cidade do Rio de Janeiro. Foram envolvidos pediatras de emergências de quatro grandes hospitais públicos, onde avaliou-se o conhecimento global e específico sobre asma, além de atitudes e práticas como: frequência de prescrição de ß2-agonistas através de aerossol dosimetrado, encaminhamento ao especialista, uso de espaçadores e do medidor do pico de fluxo expiratório (PFE)5

O conhecimento global da asma apresentava nível insuficiente em 73,7%. Questões sobre classificação e tratamento da crise aguda de asma tiveram os menores percentuais de acerto, 23,7% e 14,5%, respectivamente. Somente 13,2% dos participantes utilizaram o PFE frequentemente, e a prescrição de ß2-agonistas através de aerossol dosimetrado foi indicada por apenas 21,9%, estando esta prática associada positivamente ao uso frequente de espaçadores e do pico de fluxo expiratório. Os pediatras que também eram especialistas em alergia/pneumologia tinham maior conhecimento global da asma, e uma porcentagem maior deles usavam frequentemente o PFE5.

Os autores concluíram que o nível de conhecimento da asma dos pediatras que trabalham em emergência foi insuficiente, com pouca utilização do pico de fluxo expiratório e subutilização de ß2-agonistas através de aerossol dosimetrado. A especialização melhorou a compreensão global da doença, e há necessidade de educação médica continuada voltada para a asma infantil5.

A insuficiência do conhecimento no manejo da crise aguda de asma, aliada à elevada frequência de consultas na emergência, pode aumentar o risco de um desfecho desfavorável. Apesar das recomendações e ampla divulgação, o que se verifica é o desconhecimento das diretrizes no atendimento da crise aguda de asma em pediatria. Infelizmente, a pergunta que persiste é:"por que ainda não seguimos as guias para o manejo da crise aguda de asma em crianças?"

 

REFERÊNCIAS

1. Chong Neto HJ, Silva DC, Lara J, Sobrinho MH, Rosário N. Crise aguda de asma em crianças na cidade de Curitiba: características demográficas, frequência de consultas e subnotificação. Rev bras alerg imunopatol. 2004;27:166.

2. Global Strategy for Asthma Management and Prevention. The Global Initiative for Asthma (GINA). Updated 2017. Avaliable from: http://www.ginasthma.org/2017.

3. LagerlovP,Veninga CCM,MuskovaM,Hummers-PradierE, Stalsby Lundborg S, Andrew M, et al.Asthma management in five European countries: doctors' knowledge, attitudes and prescribing behavior. Eur Respir J. 2000;15:25-9.

4. Chong Neto HJ, Rosário NA. O uso de corticosteroide oral para sibilância em lactentes é abusivo? J Bras Pneumol. 2011;37:133-4.

5. Cordeiro NG, Cunha AJ, Kuschnir FC. Conhecimento sobre asma de pediatras de hospitais públicos do Rio de Janeiro. Arq Asma Alerg Imunol. 2018;2(1):108-17.

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