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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI
Revista oficial da Sociedad Latinoamericana de Alergia, Asma e Inmunología SLaai

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Abril-Junho 2022 - Volume 6  - Número 2


Editorial

Decifra-me ou te devoro - desvendando o enigma da urticária crônica

Decipher me or I will devour you - Unraveling the enigma of chronic urticaria

Fábio Chigres Kuschnir


Editor Associado dos AAAI. Professor Associado, Departamento de Pediatria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil




Decifra-me ou te devoro! Era este o ultimato que a esfinge de Tebas, na Grécia Antiga, lançava aos viajantes que pretendiam entrar em seus domínios. Para aqueles que não resolviam o enigma proposto pela mística criatura, o desfecho era trágico. Guardadas as devidas proporções, a urticária crônica (UC) sempre constituiu um dos grandes desafios de nossa especialidade.

Para os médicos, especialistas ou não, a falta de evidências robustas sobre os mecanismos fisiopatológicos subjacentes e o grande número de gatilhos possíveis, gerava um grande rol de exames, importantes restrições dietéticas e diferentes propostas terapêuticas, muitas das quais centradas na utilização de altas doses de anti-histamínicos de primeira geração. Na maioria das vezes estas estratégias se mostravam ineficazes no controle adequado da, então chamada, urticária crônica idiopática (UCI)1.

Para os pacientes, além do alto custo socioeconômico e impacto na qualidade de vida em função dos sintomas, limitações e efeitos colaterais impostos pelo tratamento, era comum observá-los em uma ansiosa peregrinação aos diferentes serviços médicos em busca da "cura" e origens da doença.

Com o avanço na compreensão dos mecanismos moleculares da UCI, especialmente a partir dos estudos de pacientes submetidos à terapêutica com anti-IgE (omalizumabe), foi possível desvendar em parte o "enigma" e confirmar a hipótese de que uma significativa parcela de casos da doença se deve à autorreatividade e/ou autoimunidade, inclusive, resultando na mudança da nomenclatura para urticária crônica espontânea (UCE) naqueles casos onde não existe um desencadeante específico2-4.

Estes achados tiveram profundo impacto na abordagem da urticária e angioedema crônicos, possibilitando a elaboração de novas subclassificações baseadas em biomarcadores da doença, e também mudanças de condutas clínicas, laboratoriais e terapêuticas, divulgadas amplamente através de diretrizes nacionais e internacionais5-6.

Neste número dos Arquivos Brasileiros de Asma, Alergia e Imunologia (AAAI), o Departamento Científico de Urticária da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia apresenta um guia prático no formato de perguntas/respostas sobre urticária crônica em crianças, idosos e gestantes, grupos de pacientes considerados ainda mais desafiadores por conta da escassez de estudos nestas populações7.

Ainda neste fascículo dos AAAI, o mesmo Departamento Científico aborda de forma prática e objetiva diferentes aspectos da urticária aguda que, apesar de sua alta prevalência, ainda é cercada de mitos, principalmente por parte de pacientes e médicos generalistas, gerando condutas equivocadas e buscas infrutíferas por um agente causal8.

Ao revelar alguns desses "enigmas", os dois documentos auxiliam na abordagem diagnóstica e terapêutica e a tomada de decisão frente aos desafiadores casos de urticária que enfrentamos no nosso dia a dia.

 

REFERÊNCIAS

1. Kaplan AP. Chronic urticaria: pathogenesis and treatment. J Allergy Clin Immunol. 2004;114(3):465-74.

2. Kaplan AP, Joseph K, Maykut RJ, Geba GP, Zeldin RK. Treatment of chronic autoimmune urticaria with omalizumab. J Allergy Clin Immunol. 2008;122(3):569-73.

3. Gober LM, Sterba PM, Eckman JA, Saini SS. Effect of anti IgE (omalizumab) in chronic idiopathic urticaria (CIU) patients. J Allergy Clin Immunol. 2008;121(2)5:147.

4. Sheikh J. Effect of omalizumab on patients with chronic urticaria: Issues with the determination of autoimmune urticaria. Ann Allergy Asthma Immunol. 2008;100(1):88-9.

5. Zuberbier T, Abdul Latiff AH, Abuzakouk M, Aquilina S, Asero R, Baker D, et al. The international EAACI/ GA2LEN/ EuroGuiDerm/ APAAACI guideline for the definition, classification, diagnosis, and management of urticaria. Allergy. 2022;77(3):734-66.

6. Ensina LF, Valle SOR, Campos RA, Agondi R, Criado P, Bedrikow RB, et al. Guia prático da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia para o diagnóstico e tratamento das urticárias baseado em diretrizes internacionais. Arq Asma Alerg Imunol. 2019;3(4):382-92.

7. Brandão LS, Melo JML, Dias GA, Mansour E, Gonçalves RF, De-Alcântara CT, et al. Guia prático de urticária para grupos especiais de pacientes. Arq Asma Alerg Imunol. 2022;6(2):197-213.

8. Alcântara CT, Raeder DFT, Campinhos FL, Brandão LS, Campos RA, Franca AT, et al. Guia prático de urticária aguda. Arq Asma Alerg Imunol. 2022;6(2):214-24.

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