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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI
Revista oficial da Sociedad Latinoamericana de Alergia, Asma e Inmunología SLaai

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Janeiro-Março 2021 - Volume 5  - Número 1


Artigo Original

Urticária e COVID-19: foco nesta manifestação clínica

Urticaria and COVID-19: focus on this clinical manifestation

Sérgio Duarte Dortas-Junior; Guilherme Gomes Azizi; Rossy Moreira Bastos-Junior; Camilla Resende da Matta Amaral Brum; João Victor Vieira Tavares; Caroline Pinto Pássaro; Nathássia da Rosa Paiva Bahiense Moreira; Solange Oliveira Rodrigues Valle


Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, Serviço de Imunologia - Rio de Janeiro, RJ, Brasil


Endereço para correspondência:

Sérgio Duarte Dortas-Junior
E-mail: sdortasjr@gmail.com


Submetido em: 01/03/2021
Aceito em: 07/03/2021

RESUMO

INTRODUÇÃO: A urticária é uma doença caracterizada pelo desenvolvimento de urticas, angioedema ou ambos. Convencionalmente a urticária pode ser dividida, quanto a sua duração, em duas formas: aguda (UA), quando os sintomas duram menos de seis semanas, e crônica (UC), com seis semanas ou mais de evolução. A COVID-19, enfermidade causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, foi inicialmente descrita no final de 2019. A doença se apresenta por sintomas gripais, pneumonia, síndrome respiratória aguda grave e diarreia. Entretanto, o conhecimento atual sugere que a doença seja considerada sistêmica.
OBJETIVO: Descrever as características dos pacientes que apresentaram UA ou exacerbação de UC durante infecção por COVID-19, atendidos em um Centro de Referência e Excelência em Urticária (GA2LEN UCARE).
MÉTODOS: De março a agosto de 2020 foram atendidos 12 pacientes com UA ou exacerbação da UC, diagnosticados com COVID-19.
RESULTADOS: Dentre os doze pacientes, 11 (92%) eram femininos. Quatro (33%) apresentaram UA entre o 1-6° dia da doença. Oito pacientes (67%) apresentaram exacerbação de UC, precedendo sintomas da COVID-19. Dentre estes, 5 (71%) apresentaram angioedema. Um aspecto importante foi o curso benigno destes pacientes, sem necessidade de hospitalização.
CONCLUSÃO: Apesar da COVID-19 definir-se por doença respiratória, é essencial o olhar atento e criterioso para outras manifestações clínicas, como as cutâneas, que podem se apresentar como sintomas isolados ou associados. A identificação desta condição pode levar a uma melhoria no diagnóstico e terapia da COVID-19, bem como a uma aplicação mais rápida de práticas de quarentena.

Descritores: Urticária, angioedema, SARS-CoV-2, COVID-19.




A Urticária é uma doença caracterizada pelo desenvolvimento de urticas, angioedema ou ambos. As lesões desaparecem sem deixar lesões residuais. Convencionalmente a urticária pode ser dividida, quanto a sua duração, em duas formas: aguda (UA) quando os sintomas duram menos de 6 semanas, e crônica (UC), com 6 semanas ou mais de evolução. A urticária crônica espontânea (UCE) é aquela na qual a ocorrência dos sintomas se dá de forma espontânea, quando não se identifica um desencadeante específico1.

A COVID-19, enfermidade causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, foi inicialmente descrita no final de 2019, em Wuhan (China). Desde então, o vírus se espalhou por todo o mundo, causando a infecção e morte de milhares de pessoas2-4. A doença se apresenta por sintomas gripais (febre, calafrios, tosse; 83% dos pacientes), pneumonia (31% dos pacientes), síndrome respiratória aguda grave (17% dos pacientes), náusea/vômitos (1% dos pacientes), e diarreia (~2% dos pacientes)5-7. Entretanto, inúmeros dados sugerem que esta enfermidade deve ser considerada como uma doença que envolve diferentes órgãos e sistemas, incluindo a pele8-10. Dois estudos citaram uma incidência de urticária em pacientes com diagnóstico de COVID-19; um estudo encontrou uma incidência de 3,4%, e o outro uma taxa de 1,9%10,11. Dezesseis estudos relataram urticária ou lesões urticariformes associadas à COVID-19. A maioria dos estudos relatou que as urticas ocorrem após o início dos sintomas sistêmicos10-25.

Descrevemos as características dos pacientes que apresentaram UA ou exacerbação de UC, durante infecção por COVID-19, atendidos em um Centro de Referência e Excelência em Urticária (GA2LEN UCARE)26.

De março a agosto de 2020, foram atendidos 12 pacientes com UA ou exacerbação da UC, diagnosticados com COVID-19 baseado em dados clínico-epidemiológicos ou testes confirmatórios. Casos baseados em dados clínico-epidemiológicos eram definidos por apresentarem sintomas sugestivos da COVID-19, e história de contato profissional e/ou domiciliar com caso confirmado.

Dentre os 12 pacientes, 11 (92%) eram femininos (Tabela 1). A idade média foi de 42 anos. Quatro (33%) apresentaram UA entre o 1-6° dia da doença. Três destes apresentaram febre, mialgia, tosse e anosmia; uma apresentou UA como única manifestação. Todos utilizaram anti-H1 em dose duplicada e prednisona 40 mg (1-10 dias).

 

 

Oito pacientes (67%) apresentaram exacerbação de UC, precedendo sintomas da COVID-19 (1-3 dias). Dentre estes, 5 (71%) apresentaram angioedema. Como sintomas da infecção, os pacientes relataram: cefaleia (57%), mialgia (43%), anosmia (30%), febre (30%), e outros (14%) (Tabela 1). Três pacientes apresentavam dermografismo, e 2 urticária por pressão tardia, associados a UCE (Figura 1). Utilizaram anti-H1 em doses usual (25%), duplicada (37,5%) e quadruplicada (37,5%). Dois fizeram uso de prednisona 20 mg. Dois faziam uso de omalizumabe 300 mg a cada 4 semanas, e mantiveram a medicação sem alteração posológica e sem intercorrências.

 


Figura 1
Perfil de formas de urticária entre os pacientes avaliados

 

As infecções virais são uma causa potencial de UA, e a COVID-19 não representa uma exceção. Em nossa casuística, UA e exacerbação da UC apresentaram-se como manifestações da COVID-19. As reações cutâneas devido a infecção viral, dentre elas a urticária, podem ser decorrentes da expressão da enzima conversora de angiotensina 2 do gene do receptor de células SARS-CoV-2 (ACE-2), relatada em vários tecidos humanos, inclusive a pele.

Outro aspecto importante foi o curso benigno destes pacientes, sem necessidade de hospitalização, em concordância com a literatura.

Enfim, apesar da COVID-19 definir-se por doença respiratória, é essencial o olhar atento e criterioso para outras manifestações clínicas, como as cutâneas, que podem se apresentar como sintomas isolados ou associados. A identificação desta condição pode levar a uma melhoria no diagnóstico e terapia da COVID-19, bem como a uma aplicação mais rápida de práticas de quarentena.

 

REFERÊNCIAS

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