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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI
Revista oficial da Sociedad Latinoamericana de Alergia, Asma e Inmunología SLaai

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Janeiro-Março 2021 - Volume 5  - Número 1


Editorial

COVID-19, a luta continua

COVID-19: the fight continues

Jorge Kalil


Imunologia Clínica e Alergia, Departamento de Clínica Médica, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo - São Paulo, SP, Brasil




A COVID-19 surgiu oficialmente na China em dezembro 2019 e espalhou-se rapidamente pelo mundo com infectividade, morbidade e mortalidade impressionantes.

Surpresa para a população, mas não inteiramente para quem se preocupa com a saúde global. Esperava-se uma pandemia e, as sociedades mais organizadas já se preparavam para isto. Em fevereiro de 2017, em Paris, foi criado o CEPI (Coallision for Epidemic Preparedness Innovations) para justamente consolidar grupos científicos e tecnológicos de preparação e combate a pandemias. Na ocasião falei sobre a Zika no Brasil. Mas, esta doença, embora seja uma ameaça de consequências nefastas, nunca será uma pandemia, pois sempre se pode combater e controlar o vetor, o mosquito. O presidente da França, à época, François Hollande, me precedeu no pódio, trazendo mensagem forte no discurso e na sua presença no evento. O CEPI é um dos responsáveis pela rapidez com que as vacinas foram desenvolvidas.

A grande ameaça, no mundo atual, são as doenças transmitidas pela respiração, pela quase impossibilidade de se controlar sua transmissão. Esperava-se alguma variante da Influenza, mas nos deparamos com o SARS-CoV-2. O SARS-COV que apareceu na China em 2002 e o MERS que surgiu no Oriente Médio em 2012 tiveram alta mortalidade, mas foram controlados. Aí estava a ameaça e o alerta, que não valorizamos como deveríamos.

Quando chegou a pandemia de COVID-19, pelo menos conhecíamos um pouco estes coronavírus, o suficiente para permitir que as grandes empresas farmacêuticas fizessem uma arriscada, mas justificada aposta científica: fazer vacinas baseadas na proteína da espícula S (do inglês spike). Sabia-se pelos surtos descritos acima, que esta proteína S que dá a forma de coroa e o nome para estes coronavírus, é a que liga no receptor da célula humana, o ECA2 - Enzima Conversora da Angiotensina 2. Mais particularmente, estruindo desta proteína, a RBD (Receptor Binding Domain) é a responsável pela ligação. Seguindo antigos preceitos da vacinologia, hoje cada vez mais sendo revistos, que o necessário e suficiente são os anticorpos formados que impedem a adesão do vírus à célula, os chamados anticorpos neutralizantes, iniciou-se o desenvolvimento de vacinas. Sabemos, hoje, graças a estudos feitos no nosso laboratório e em vários outros espalhados pelo mundo, que a resposta celular T, CD4 e CD8 são também muito importantes. E que a proteína S tem poucos determinantes antigênicos que desencadeiem forte resposta T.

Assim, afora as vacinas de conceituação antiga de vírus inativado, desenvolvidas por empresas e institutos orientais, a grande indústria ocidental lançou-se no desenvolvimento de vacinas baseadas no antígeno da proteína S. Para tal, precisava-se de uma forma de administração, e surgiram as vacinas com vetor adenovírus (AstraZeneca, J&J/Janssen e SputinikV), mRNA (Moderna e Pfizer) e proteína com adjuvante (Novavax), enquanto outras ainda são estudadas. De eficácias variáveis, estas vacinas são, no momento, a esperança de controlarmos esta pandemia que castiga tão fortemente nosso país. Importantíssimo utilizar a que estiver disponível, independentemente de sua eficácia comprovada em estudos de fase 3. Como complicação suplementar no combate ao vírus surgiram as variantes preocupantes (do inglês, VOC, Variants Of Concern). Das milhares de variantes já existentes, as VOCs são aquelas que ocorrem na RBD e que conferem melhor afinidade ao receptor ECA2. Com isto, aumenta a infectividade e perde-se em parte os anticorpos neutralizantes formados por uma exposição natural ao vírus ou à vacina. As VOCs B.1.1.7 (501Y.V1), B.1.351 (501Y.V2) e B.1.1.28.1 (P.1) surgiram no Reino Unido, África do Sul e Brasil, respectivamente. Estas variantes ocorreram em três posições da sequência da RBD com troca de aminoácidos. São elas as posições 417, 484 e 501 da proteína S. Interessantemente as mesmas trocas ocorreram nesses três lugares distantes, determinando o que se chama "mutação convergente". E por quê? Porque são vantajosas para o vírus, pois apresentam maior afinidade de ligação ao receptor, sendo assim mais infectantes. Estima-se que o número de casos com a variante P1 já chegue a 90% em São Paulo.

Teremos ainda muitas variantes? Eu acredito que não. Talvez mais umas poucas, porque os sítios na RBD mais importantes já foram mutados, tendo em vista a observação destes mutantes convergentes nos mesmos pontos. Mas, com estas variantes teremos alguns casos de reinfecção e de escape vacinal.

Teremos que tomar vacina todos os anos? Bem, isto ainda não sabemos, pois vai depender da efetividade das vacinas no mundo real. Conseguirão controlar as variantes e induzirão memória longa?

Por isto mesmo, a batalha científica não acabou, e novas vacinas mais eficazes, que desenvolvam memória mais longa e tenham melhor cobertura, surgirão. Por enquanto vacine com a melhor vacina, a que estiver à sua disposição.

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