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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI
Revista oficial da Sociedad Latinoamericana de Alergia, Asma e Inmunología SLaai

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Outubro-Dezembro 2020 - Volume 4  - Número 4


CARTA AO EDITOR

Enfim, uma boa notícia...

Paulo Eduardo Silva Belluco


DOI: 10.5935/2526-5393.20200075

Escola Superior de Ciências da Saúde / Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde, Mestrando Acadêmico em Ciências da Saúde / Alergia - Brasília, DF, Brasil


Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação desta carta.




Prezado Editor,

Conservantes são aditivos químicos essenciais na manufatura de uma ampla variedade de produtos industriais e comerciais, uma vez que eles previnem o supercrescimento de microrganismos. Por isso, são também chamados de microbicidas1. Derivados isotiazolinonas são largamente usados como conservantes ou microbicidas em produtos domiciliares e industriais, estando muitos deles contidos em produtos cosméticos. A mistura de metilcloroisotiazolinona (MCI) e metilisotiazolinona (MI), conhecido como Kathon CG®, composta numa proporção 3:1, causou uma epidemia de dermatite alérgica de contato (DAC) nos anos 80. Mais recentemente, o uso de MI como conservante isolado em concentrações crescentes nos cosméticos tem resultado em dramáticos índices de sensibilização no mundo todo2.

Detalhando melhor, os primeiros casos de DAC de produtos industriais contendo MI foram relatados em 2004. Desde 2010-2012 a prevalência de alergias de contato à MI tem aumentado significativamente. A principal razão para isso é que MI é usada como um conservante individual em cosméticos em concentrações de até 100 ppm (0,01%) quando comparado a somente 15 ppm (0,0015%) na mistura MCI/MI. Em 2013, MI foi eleita como 'alérgeno do ano' pela Sociedade Americana de Dermatite de Contato2.

O resultado foi o surgimento de uma pandemia de DAC à MI. Dados publicados do Grupo Norte Americano de Dermatite de Contato (NACDG) evidenciaram incremento marcante na prevalência de alergia às isotiazolinonas. Nesse trabalho realizado com 4.860 pacientes, houve reações positivas à MCI/MI em 6,3% dos pacientes, e em 10,7% à MI isolada no período de 2013-20143. Em 2017, foi publicado estudo multicêntrico prospectivo conduzido em 11 centros de 8 países europeus. Nesse estudo foi incluída a MI, em solução aquosa à 0,2%. Nesse grande estudo, um total de 205 indivíduos tiveram testes positivos a essa substância entre 3.434 participantes (6,0%)4. A Austrália parece ter experimentado a mais alta prevalência de alergia à MI relatada na literatura. Foi observado um pico de positividade de 20,3% dos testes em 20155.

Em consequência de tantas evidências dessa pandemia, o uso da mistura MCI/MI e de MI em cosméticos leave on (produtos que permanecem na pele) foi proibido na Europa em 2016 e 2017, respectivamente. Em 2018, a concentração de MI em cosméticos rinse off (produtos de enxague) foi reduzida pela Comissão Europeia para o mesmo nível do MCI/MI, 15 ppm (0,0015%). A introdução de medidas legislativas semelhantes mundo afora levou à diminuição da incidência de DAC não ocupacional devido às isotiazolinonas, principalmente de produtos cosméticos. Por outro lado, observou-se aumento de DAC ocupacional em alguns países após a epidemia, devido à ausência de restrições legais ao uso das isotiazolinonas em produtos industriais6.

Já é bem sabido que os cosméticos têm sido implicados como a principal fonte de sensibilização e que produtos leave on têm sido primariamente implicados, incluindo lenços umedecidos2. Além disso, a ocorrência de isotiazolinonas em tintas tem sido recentemente reconfirmada7, e detergentes podem causar DAC, também pelas isotiazolinonas, seja via contato direto ou exposição por aerodispersão2. Isso ocorreria realmente por mecanismo alérgico e não apenas por irritação primária, como anteriormente se pensava.

Portanto, pelo menos na Europa, a MI pode ser usada em qualquer concentração sem restrição em produtos não cosméticos, tais como agentes de limpeza domésticos ou industriais. Concordamos com a literatura que é importante se estabelecer a concentração máxima permitida desse conservante, haver clara instruções de uso e restringir a venda de produtos em spray (maior risco de aerodispersão) e de detergentes não diluídos que podem ser usados em concentrações muito elevadas8. A nosso ver, devido à pandemia dessa alergia, deveria haver a rotulagem em saneantes: "Contém isotiazolinona".

No Brasil, em 4 de julho de 2011, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estabeleceu lista de substâncias de ação conservante permitidas para formulações de produtos saneantes com suas respectivas concentrações máximas. Aqui ficou estabelecido que o limite para MI seria de 0,01%9. Porém, conforme as disposições nacionais da Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) da ANVISA, de 2010, é obrigatória apenas a informação do ingrediente ativo (principal ingrediente da formulação) nos rótulos dos produtos; as demais substâncias, como por exemplo, os conservantes, não precisam ser discriminadas10. Sendo assim, pacientes alérgicos à MI podem entrar em contato com esse conservante sem terem ciência disso.

Posteriormente a isso, conforme a RDC nº 29, de 1º de julho de 2012, ficou estabelecido que em cosméticos a substância MI poderia estar como ingrediente na concentração máxima de 100 ppm (0,01%) de forma isolada, ou na associação MCI/MI na concentração de até 15 ppm (0,0015%)11. Assim, a prevalência de sensibilização à MI no Brasil poderia ultrapassar as maiores prevalências observadas até o momento na literatura. Isso poderia ser atribuído às altas concentrações desse conservante ainda permitido em cosméticos, bem como em produtos de limpeza e tintas. Portanto, naquele momento, o Brasil em concordância com os outros membros do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL - Argentina, Paraguai e Uruguai), ainda estaria usando concentrações elevadas de MI, independentemente da natureza do cosmético12.

Neste cenário, devido à enorme importância do assunto, há 1 ano escrevemos conjuntamente com o Prof. Pedro Giavina-Bianchi, um artigo de revisão nesta revista, visando alertar os especialistas de que estávamos frente a uma epidemia de alergia de contato. Naquele momento, o estudo objetivava levantar os dados que demonstravam a importância da MI na etiologia da dermatite alérgica de contato, assim como mostrar aos especialistas o correto diagnóstico dessa importante alergia1. Ressaltávamos que a bateria padrão brasileira tinha sido desenvolvida e padronizada pelo Grupo Brasileiro de Dermatite de Contato, com resultados publicados em 2000 (muito antes da epidemia), e que, portanto, não continha o conservante MI isoladamente1. Posteriormente, passamos a realizar testes conforme preconiza a literatura com MI à 0,2% em veículo aquoso13, através da conhecida Bateria Padrão Latino-Americana14, com resultados marcantes15.

Finalmente, a ANVISA aprovou na última reunião do Mercosul, em outubro de 2020, uma redução na concentração máxima de MI para 15 ppm (0,0015%) também na forma isolada, e apenas em produtos rinse off. Sendo assim, ficará proibido essa substância em produtos leave on (incluindo os lenços umedecidos)! Essa alteração já passou pela Consulta Pública e apenas aguarda a finalização do documento completo por parte da Secretaria do MERCOSUL para ser encaminhada à deliberação pela Diretoria do Colegiado da ANVISA, depois publicada e entrar em vigor.

Enfim, uma boa notícia...

 

REFERÊNCIAS

1. Belluco PES, Giavina-Bianchi P. Dermatite de contato à metilisotiazolinona - estamos atentos a essa epidemia? Arq Asma Alerg Imunol. 2019;3(2):139-42.

2. Herman A, Aerts O, de Montjoye L, Tromme I, Goossens A, Baeck M. Isothiazolinone derivatives and allergic contact dermatitis: a review and update. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2019 Feb;33(2):267-76.

3. Zirwas MJ, Hamann D, Warshaw EM, Maibach HI, Taylor JS, Sasseville D, et al. Epidemic of Isothiazolinone Allergy in North America: Prevalence Data From the North American Contact Dermatitis Group, 2013-2014. Dermatitis. 2017:28(3):204-9.

4. Schwensen JF, Uter W, Bruze M, Svedman C, Goossens A, Wilkinson M, et al. The epidemic of methylisothiazolinone: a European prospective study. Contact Dermatitis. 2016;76:272-9.

5. Flury U, Palmer A, Nixon R. The methylisothiazolinone contact allergy epidemic in Australia. Contact Dermatitis. 2018;79(3):189-91.

6. Ozkaya E, Sayar SK, Kobaner GB, Pehlivan G. Methylchloroiso-thiazolinone/methylisothiazolinone and methylisothiazolinone contact allergy: A 24-year, single-center, retrospective cohort study from Turkey. Contact Dermatitis. 2020:1-10.

7. Thomsen AV, Schwensen JF, Bossi R, Banerjee P, Giménez-Arnau E, Lepoittevin JP, et al. Isothiazolinones are still widely used in paints purchased in five European countries: a follow-up study. Contact Dermatitis. 2018 Apr;78(4):246-53.

8. Marrero-Alemán G, Santana PS, Liuti F, Hernández N, López-Jiménez E, Borrego L. The Role of Cleaning Products in Epidemic Allergic Contact Dermatitis to Methylchloroisothiazolinone/Methylisothiazolinone. Dermatitis. 2018;29(2):77-80.

9. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada - RDC n° 30, de 04 de Julho de 2011. Lista de substâncias de ação conservante permitidas para permitidas para formulações de produtos saneantes.

10 . Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução de Diretoria Colegiada - RDC n° 59, de 17 de Dezembro de 2010. Procedimentos e requisitos técnicos para a notificação e o registro de produtos saneantes.

11. Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Brasil). Resolução da Diretoria Colegiada - RDC n° 29, de 01 de Junho de 2012. Lista de ação conservante permitida para produtos de higiente pessoal, cosméticos e perfumes.

12. Villarinho ALCF, Melo MGM, Teixeira LR. Allergic contact dermatitis and photosenstivity to methylisothiazolinone and methylchloroisothiazolinone/methylisothiazolinone: Portrait of an epidemic in Brazil. Contact Dermatitis. 2020;82:258-9.

13. Bruze M, Engfeldt M, Goncalo M, Goossens A. Recommendation to include methylisothiazolinone in the European baseline patch test series-on behalf of the European Society of Contact Dermatitis and the European Environmental and Contact Dermatitis Research Group. Contact Dermatitis. 2013;69:263-70.

14. Consenso "Dermatitis por Contacto". Sociedad Argentina de Dermatologia. Buenos Aires, 2015.

15. Azevedo FSM, Belluco PES, Reis CMS. Dermatite alérgica de contato à metilisotiazolinona. Revista de Medicina e Saúde de Brasília. 2020;9(2):156-61.

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