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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Junho- 2020 - Volume 4  - Número 2


Editorial

O trono ainda está com o coronavírus

The throne still belongs to the coronavirus

Pedro Giavina-Bianchi


DOI: 10.5935/2526-5393.20200039

Editor dos Arquivos de Asma, Alergia e Imunologia. Prof. Livre Docente Associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da FMUSP - São Paulo, SP, Brasil




A pandemia COVID-19 já assola o mundo há seis meses. Neste período, os números oficiais contabilizam cerca de 11 milhões e meio de pessoas infectadas e de 550 mil mortos e, embora subestimados, qualificam a COVID-19 como a maior pandemia de nossos tempos, sendo a mais abrangente, mais cara e com maior mortalidade. O Brasil, que foi acometido há cerca de quatro meses, representa proporcionalmente cerca de 10% do número de casos totais e também de óbitos. Para se ter a dimensão destes números, em um dia, em um único país, no pico da epidemia, morrem mais pessoas do que o total observado na SARS (2002) e também na MERS (2012), as epidemias do passado causadas por coronavírus.

Calamidade de saúde pública sem precedentes que mudou o mundo e alterou negativamente o biopsicossocial, a economia e o espiritual de todos. Já se observa aumento nas taxas de ansiedade, incluindo estresse pós-traumático, depressão, burnout, consumo de álcool, uso de opioides, entre outros distúrbios psíquicos. É injusto falar que o mundo parou, pois nunca se trabalhou tanto, desde os profissionais de saúde da linha de frente, os pesquisadores à procura de respostas à pandemia, os autônomos e empresários se reinventado e os profissionais em jornadas triplas em seus home offices. O mundo não parou, mas mudou, e não voltará a ser o mesmo. No início da pandemia havia muitas perguntas e pouco conhecimento. Seis meses após, são cerca de 30.000 publicações científicas indexadas no PubMed, muito saber adquirido, mas ainda muitas dúvidas persistem.

Portanto, vivenciamos a pandemia COVID-19, mas também uma infodemia. São muitas publicações importantes, mas outras discordantes, controversas e inconclusivas, além da divulgação de informações falsas, irresponsáveis e oportunistas.

Três mecanismos, que não são excludentes, destacam-se entre os fatores que podem amenizar a pandemia, tornando-nos mais seguros e aliviando nosso estresse. O primeiro mecanismo, a imunidade comunitária ou imunidade de rebanho, já se observa no país. As pessoas infectadas desenvolvem imunidade e tornam-se protegidas ao coronavírus, que passa a ter menor chance de continuar circulando entre nós. Num estudo em andamento no Hospital das Clínicas da FMUSP para analisar a transmissão domiciliar do SARS-CoV-II, estamos observando soropositividade contra o vírus em cerca de 31,5% dos contatantes de profissionais da área de saúde que tiveram a COVID-19 ou foram oligo/assintomáticos e têm sorologias positivas, estes últimos 14,5% dos colaboradores testados.Também notamos que dentre os principais fatores responsáveis pela transmissão do vírus estão os fatores socioeconômicos, como a densidade demográfica e o transporte público. A COVID-19 acometeu o país de forma heterogênea, com picos de incidência que têm variado no tempo segundo as regiões, os estados e mesmo as cidades dentro de um mesmo estado do país. Entretanto, a disseminação da infecção foi ampla e geral, não poupando ninguém. Locais preservados no início, como as regiões Sul e Centro-Oeste, o estado de Minas Gerais e o interior do estado de São Paulo, agora vivenciam os piores efeitos da pandemia. Após a queda do número de novos caso e da mortalidade pela COVID-19, é possível que ocorram novas ondas que acometam bolsões de indivíduos suscetíveis, mas estas, provavelmente, serão marolas comparadas ao que vivenciamos nesses últimos meses.

O segundo mecanismo de enfraquecimento da pandemia ocorreria através do desenvolvimento de tratamentos mais efetivos contra o coronavírus. Sabemos que 85% ou mais das pessoas que se infectam pelo coronavírus apresentam as formas leves. Mas é justamente a evolução da minoria restante, principalmente, mas não exclusivamente, constituída por pacientes idosos e com comorbidades, que traz medo, apreensão e ansiedade. Ainda não temos um medicamento de grande eficácia e relevância clínica para ser utilizado no início da infecção, período conhecido como fase viral, com o intuito de se evitar a evolução para a insuficiência respiratória observada nos casos mais graves. A politização e polarização observada em diversas discussões têm sido muito prejudiciais para o combate à pandemia. Como exemplo, a energia desperdiçada no debate improdutivo envolvendo o uso da cloroquina impressiona. Não é questão de ser contra a realização de estudos, os quais devem ser estimulados, mas convenhamos que após o grande número de estudos realizados e de pessoas acometidas pela COVID-19, a eficácia de um medicamento que tivesse grande impacto clínico já teria sido comprovada.

O terceiro mecanismo pode ocorrer com a vacinação. Diversas vacinas, com diferentes mecanismos de ação, estão sendo desenvolvidas ao redor do mundo, incluindo o Brasil. Algumas delas já começaram a ser testadas e têm induzido a produção de anticorpos. A comprovação final de eficácia depende da demonstração da prevenção da COVID-19 nos indivíduos imunizados e, para tanto, o coronavírus ainda tem que estar circulando. Entretanto, mesmo que as vacinas só estejam disponíveis em escala mundial quando a pandemia já esteja relativamente controlada, muitos de nós ainda estaremos suscetíveis à infecção, sem considerar as gerações futuras que não terão tido contato com o SARS-Cov-II. Portanto, todo o esforço para o desenvolvimento de vacinas contra o coronavírus é justificado e extremamente importante.

Em conclusão, estamos assistindo à história natural da pandemia COVID-19 modificada pelo distanciamento social, medidas de higiene e o tratamento das formas graves com suporte respiratório e o uso de corticosteroides e heparina. Ironicamente, o nome coronavírus se deve à forma de sua estrutura com espículas em sua superfície que apresenta a aparência de coroa, corona em latim. O SARS-Cov-II está no comando e não tem dado muita margem para escolhas erradas, que acarretam sofrimento ainda maior. Devemos continuar ativamente buscando as melhores soluções para a pandemia, mas também, humildemente, ter a consciência e reconhecer que o coronavírus tem controlado nossas ações.

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