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Revista oficial da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI

Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI)

Número Atual:  Julho-Setembro 2019 - Volume 3  - Número 3


CARTA AO EDITOR

Sobre a falta de imunoglobulina humana

Almerinda Maria Rego Silva; Anete Sevciovic Grumach; Antonio Condino Neto; Carolina Cardoso de Mello Prando; Carolina Sanchez Aranda; Cristina Maria Kokron; Ekaterini Simões Goudouris; Fernanda Mariz; Gesmar Rodrigues Silva Segundo; Mayra de Barros Dorna; Wilma Carvalho Neves Forte; Helena Fleck Velasco


DOI: 10.5935/2526-5393.20190044


Endereço para correspondência:

Gesmar Rodrigues Silva Segundo
E-mail: gesmar2@gmail.com

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação desta carta.




Prezado Editor,

A imunoglobulina humana (IG) é obtida por meio do fracionamento de proteínas plasmáticas e submetida a várias etapas de processamento para purificação e estabilização. Trata-se de produto não genérico e disponível em diversas apresentações comerciais. Novos produtos têm sido lançados no mercado, mas a demanda por IG é crescente no mundo inteiro devido ao aumento no diagnóstico de erros inatos da imunidade, bem como pela ampliação da lista de indicações para seu uso. O registro da Sociedade Latino Americana de Imunodeficiências (LASID) identificou um aumento de 300% no consumo de IG no Brasil nos últimos anos1.

Em agosto desse ano, a Food and Drug Administration (FDA) publicou nota sobre a escassez de IG nos EUA, na qual cita motivos para essa falta, assim como medidas tomadas para lidar com esse problema. Uma das medidas que merece destaque é a de priorizar alguns pacientes, procurando tomar decisões baseadas em evidências científicas para a indicação do uso de IG2.

Há diversos problemas que podem ocorrer referentes aos fabricantes, distribuidoras, sistemas de compra e de estoque em farmácias especializadas, mas a principal dificuldade no mundo todo se refere à manutenção de uma captação de plasma que acompanhe a crescente demanda pelo produto3.

A situação no Brasil é ainda mais dramática. A Hemobrás foi criada em 2004 como a empresa brasileira responsável pela captação e processamento de plasma excedente do uso de derivados do sangue total. Esse processamento sempre se deu de forma restrita, pois nem todos os possíveis derivados do plasma eram produzidos pela empresa. A imunoglobulina, por exemplo, não o era. Em parte, isso se deve ao fato de que a construção da fábrica que permitiria o processamento desse plasma em Goiana (PE) ainda não está concluída. A obra iniciou-se em 2010 e foi interrompida em 2017, quando o Ministério da Saúde publicou uma Portaria que retirava da Hemobrás a permissão para processar o plasma captado, tendo essa empresa passado apenas a estocar o material. Não houve, desde então, contratação de nenhuma outra empresa para processar o plasma que, sem destino, passou a ser incinerado por vários hemocentros no país. Recentemente, em maio de 2019, representantes do Ministério Público Federal (MPF) e da Hemobrás tentaram, sem sucesso, resolver o impasse com o Ministro da Saúde4.

O tema tem aparecido na imprensa digital e escrita nacional, e temos notícias de que a empresa está na lista daquelas a serem privatizadas, mas o fato é que ainda não temos no Brasil um adequado sistema de captação e processamento de plasma para a produção de imunoglobulina e de muitos outros produtos hemoderivados, tais como albumina, fator VIII, fator IX e inibidor de C1 esterase (produto também bastante relevante para nossa especialidade).

O mais preocupante é que esse produto de enorme valor material e para a saúde de milhões de brasileiros é desperdiçado, e não temos perspectivas de quando o problema será resolvido. Considerando que as empresas que produzemessescompostos derivadosdoplasma devem fornecer primeiramente aos países de onde partem as doações, é possível entender por que necessitamos urgentemente aprimorar o sistema de captação e concluir e ampliar instalações para o processamento do plasma excedente do uso do sangue total doado, assim como introduzir no país um sistema de captação direta apenas de plasma, utilizando tecnologia diferenciada.

Enquanto isso não está disponível, consideramos que cabe ao especialista em alergia e imunologia, que acompanha pacientes com erros inatos da imunidade, dependentes desses produtos para se manterem vivos e saudáveis, procurar permanecer atualizado sobre o uso da IG, assim como procurar alertar e orientar colegas de outras especialidades acerca da escassez do produto e das indicações aprovadas em doses e esquemas apropriados.

 

Referências

1. Latin American Society for Immunodeficiencies - LASID Registry [Internet]. Disponível em: https://lasidregistry.org/.

2. U. S. Food & Drug Administration. Information About Immune Globulin (Human) Product Shortage [Internet]. Disponível em: https://www.fda.gov/vaccines-blood-biologics/safety-availability-biologics/information-about-immune-globulin-human-product-shortage.

3. Immune Deficiency Foundation. Immunoglobulin Product Availability Issues: The Sky Is Not Falling but the World Needs More Plasma. [Internet]. Disponível em: https://www.primaryimmune.org/news/ig-availabilty-issues.

4. Formenti L. O impasse na saúde leva Estados a descartarem plasma. O Estado de S. Paulo. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,estatal-do-sangue-tem-impasse-eprejuizos,70002826100.

 

Departamento Científico de Imunodeficiências da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia - ASBAI

Almerinda Maria Rego Silva
Anete Sevciovic Grumach
Antonio Condino Neto
Carolina Cardoso de Mello Prando
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Mayra de Barros Dorna
Wilma Carvalho Neves Forte
Helena Fleck Velasco

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